Investigação da PF Atinge Alto Escalão do Poder Público
A Polícia Federal (PF) indiciou nesta última sexta-feira (27) o deputado estadual afastado Rodrigo Bacellar (União Brasil) e o ex-deputado Thiego Raimundo dos Santos Silva, conhecido como TH Joias, pela suposta divulgação de informações a membros do Comando Vermelho (CV). A investigação evidencia, segundo os agentes, a infiltração do crime organizado nas esferas centrais do governo do Rio de Janeiro, envolvendo um nome intimamente ligado ao bolsonarismo no estado.
No relatório final enviado ao Supremo Tribunal Federal (STF), os investigadores afirmam que Bacellar atuava como a “liderança do núcleo político” da facção criminosa. O documento destaca que o parlamentar tinha a função de garantir “a interlocução política necessária à blindagem das ações da horda” criminosa.
Com suas 188 páginas, o relatório pinta um quadro sombrio sobre a figura de Bacellar, que, segundo a PF, representa “o retrato perfeito da espoliação dos espaços públicos de poder pelas facções criminosas no Rio”. A investigação revela, ainda, a sinistra interação entre organizações criminosas e agentes públicos, um dos elementos nefastos dessa rede criminoso.
Motivações Eleitorais e Controle Territorial
Os investigadores indicam que a manutenção de laços com o Comando Vermelho poderia ter fins eleitorais. O relatório sugere que a facção detém um dos maiores controles territoriais do estado, o que pode se traduzir em influência política significativa e, consequentemente, votos. Diante desse cenário, fica evidente como o crime organizado busca se infiltrar na política local.
Bacellar, que já exerceu a presidência da Assembleia Legislativa do Rio (Alerj) e interinamente assumiu o governo do estado na ausência do titular Cláudio Castro, foi preso em dezembro após uma ordem do ministro Alexandre de Moraes. Ele foi acusado de vazar informações sigilosas relacionadas à Operação Zargun, que visava TH Joias, denunciado pela PF como o intermediário na compra de armamentos para o CV.
Apesar da prisão, a Alerj revogou a decisão poucos dias depois. Atualmente, Bacellar está sob medidas cautelares, incluindo o uso de tornozeleira eletrônica e restrições noturnas de deslocamento.
Papel de TH Joias na Estrutura Criminosa
A investigação também lança luz sobre o papel de TH Joias na estrutura do Comando Vermelho. Para a PF, ele funcionava como um “parlamentar estadual membro do CV com assento na Alerj”, realizando atendimentos escusos da facção em diversos assuntos, principalmente na área da segurança pública. Além disso, o relatório aponta que o ex-deputado atuava na intermediação da compra de armas e equipamentos tecnológicos para a organização criminosa.
Indícios de Loteamento de Cargos
Além das acusações de vazamento de informações, as investigações revelaram indícios de loteamento de cargos públicos. A PF encontrou no gabinete de Bacellar uma planilha intitulada “PEDIDOS EM 12-04-23”, que detalhava a distribuição de posições dentro da estrutura governamental entre parlamentares aliados.
O documento incluía informações sobre o que cada deputado já “possuía” em termos de cargos e quais eram suas novas reivindicações dentro da administração pública. Nomes como o do deputado Douglas Ruas estavam na lista, que solicitou posições na Faetec e no Detran de São Gonçalo, além de obras em sua região. Ruas, vale lembrar, foi recentemente anunciado como candidato ao governo do Rio, com o apoio do senador Flávio Bolsonaro (PL).
A investigação ainda destacou que uma expressiva maioria, cerca de 87,88%, dos deputados que constavam na planilha votaram a favor da soltura de Bacellar após sua prisão, revelando um vínculo preocupante entre o legislativo e o crime organizado.
Reações e Defesas
O caso provocou reações contundentes entre os opositores. A deputada federal Talíria Petrone (PSOL-RJ) não hesitou em comentar: “A CASA CAIU! O ex-presidente da Alerj, deputado Rodrigo Bacellar, parceiro do governador Cláudio Castro, exercia ‘liderança do núcleo político’ do CV, conforme indicado na investigação da Polícia Federal. ‘Retrato perfeito da espoliação’, diz a PF.” Para Petrone, é fundamental que o povo do Rio de Janeiro tome uma posição nas eleições de outubro.
O deputado federal Bohn Gass (PT-RS) também fez questão de relacionar a situação ao bolsonarismo. Ele afirmou: “Rodrigo Bacellar, que Bolsonaro queria como candidato ao governo do Rio, foi preso por vazar informações ao Comando Vermelho. A PF encontrou cadernos dele com nomes que comporiam seu governo. E lá estava Douglas Ruas, anunciado esta semana como candidato do PL. Notem: é a mesma turma…”.
Em resposta às acusações, as defesas de Bacellar e TH Joias negaram qualquer irregularidade. Os advogados de Bacellar destacaram a falta de provas concretas sobre sua participação em crimes e consideraram o indiciamento “arbitrário e abusivo”. Por sua vez, a defesa de TH Joias afirmou: “Nego peremptoriamente qualquer envolvimento de Thiego em vazamentos ou informações a organizações criminosas do estado do Rio de Janeiro. Sua relação com Rodrigo Bacellar era apenas de colegas de parlamento.”

