Reflexões sobre as Relações Brasil-China
Deng Xiao Ping, reconhecido como o arquétipo do progresso econômico da China no final do século passado, permanece relativamente desconhecido fora da Ásia, ao contrário do que seu legado mereceria. Em contrapartida, Mao Tsé Tung, conhecido como ‘o grande timoneiro’ e responsável por um dos piores desastres econômicos daquela época, continua a ser mencionado frequentemente nas discussões sobre o gigante asiático, atualmente sob a liderança de Xi Jinping, que se beneficia das sementes plantadas por Deng. Foi na época em que ocupava a vice-primeira-ministro que Deng visitou o Brasil, buscando expandir as importações de minério de ferro da Vale do Rio Doce, durante o governo FHC. A viagem que fez entre São Luís, no Maranhão, e Carajás, no Pará, seria seguida, um mês depois, pela visita de uma comitiva de jornalistas, da qual eu fazia parte, para conhecer o projeto. Na esteira do comércio de minérios, o Brasil também viu crescer as exportações de petróleo, soja, milho e diversas carnes, tornando a China o principal destino das exportações brasileiras, que representa cerca de 30% do total.
Deng, pragmático por natureza, costumava afirmar que ‘não importa a cor do gato, desde que cace o rato’ quando indagado sobre a abertura econômica da China e as reformas estruturais que estavam em curso. Hoje, o cenário é outro: a China se posiciona como concorrente direto dos Estados Unidos. A administração Trump, em busca de um inimigo para reafirmar a força americana, encontrou no Irã um alvo, apoiado por Israel, em meio a críticas quase unânimes.
O Momento Político Nacional
Após o Carnaval, momento em que o presidente Lula fez uma breve aparição no sambódromo e foi homenageado pela Acadêmicos de Niterói, o cenário político brasileiro se agita com o retorno dos trabalhos no Congresso e o início da corrida eleitoral. A oposição, dividida entre a extrema-direita bolsonarista, que visa salvar o ex-presidente de suas condenações, e a direita envergonhada que opera sob as siglas do ‘Centrão’, inicia uma incansável busca por maneiras de constranger o atual governo. Com tentativas de quebrar o sigilo fiscal e financeiro de ‘Lulinha’, filho do presidente, a oposição busca reavivar velhas acusações de que ele seria sócio de grandes empresas, como a Friboi.
Uma parte da oposição ainda procura enquadrar o Supremo Tribunal Federal (STF) após confusões envolvendo o ministro José Antônio Dias Toffoli e o Banco Master. Enquanto isso, uma significativa facção do ‘Centrão’ tenta evitar que o ex-banqueiro Daniel Vorcaro testemunhe nas CPIs do Congresso, vinculadas tanto ao INSS quanto ao Banco Master, que têm afetado muitos cidadãos comuns, aposentados e servidores públicos.
Expectativas para a Campanha Eleitoral
Os eventos recentes indicam que a tensão na disputa eleitoral brasileira está em ascensão. Estão sendo montadas estratégias para ressuscitar investigações sobre as ‘rachadinhas’ relacionadas aos salários de assessores no gabinete do ex-deputado estadual Flávio Bolsonaro, que ocorreram durante sua gestão na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro. Após a ascensão de Jair Bolsonaro à presidência em 2018 e a eleição de Flávio para o Senado, houve uma tentativa de encobrir os fatos. O inquérito, que começou no Ministério Público do Rio de Janeiro, acabou subindo para o Superior Tribunal de Justiça, onde manobras no Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro resultaram na anulação de provas e a interferência de Jair Bolsonaro na suspensão das investigações, levando à troca de chefias na Polícia Federal e do próprio ministro da Justiça na época, Sérgio Moro.
Impostos e Desafios Econômicos
No cenário econômico, o governo enfrenta dificuldades que se intensificam. O recente aumento nas taxas de importação, prevendo novas tarifas sobre mais de 1.200 artigos, gerou reações adversas. Apesar de a arrecadação do Tesouro ter registrado um crescimento de R$ 2,1 bilhões, a redução nas operações da Empresa de Correios e Telégrafos, que era responsável pela entrega de muitos produtos no interior, resultou em uma queda de R$ 1,2 bilhões na receita da empresa. Isso agravou sua crise financeira e levou o governo a garantir mais de R$ 8 bilhões em empréstimos junto a bancos.
O desgaste político gerado por essas medidas é palpável. Durante o ano eleitoral de 2026, a proposta de taxar eletrônicos semelhantes às ‘blusinhas’ gerou polêmica nas redes sociais, levando o Comitê-Executivo de Gestão a recuar na elevação das alíquotas de determinados produtos, como celulares e laptops. O ministro Fernando Haddad destacou que a maioria dos produtos afetados já é fabricada no Brasil, posicionando a medida como mais protetiva do que restritiva.
Reflexões sobre Segurança Pública
Por fim, o Projeto de Lei Antifacção, aprovado recentemente, perdeu uma excelente oportunidade de modernizar os inquéritos policiais no Brasil. A ausência de uma articulação mais próxima entre os órgãos de segurança e o Ministério Público, como visto em muitas séries policiais internacionais, dificulta a eficácia das investigações e perpetua a impunidade. A rápida escalada do crime é um ponto preocupante em um sistema que falha em punir adequadamente os infratores.
Ao observamos o cenário político e econômico atual, fica claro que os desafios são muitos e as soluções, complexas. O que está em jogo é o futuro do Brasil e a capacidade de seus líderes de tramitar entre interesses diversos e, ao mesmo tempo, garantir a estabilidade e o progresso para a população.

