A Importância de Janeiro para a Saúde Mental
O mês de janeiro é mais do que apenas o início de um novo ano; ele foi escolhido como o período para refletirmos sobre a saúde mental. No entanto, é válido considerar que a saúde deve ser uma preocupação constante, abrangendo todos os meses do ano. Neste contexto, a psiquiatria, uma especialidade médica essencial, desempenha um papel fundamental. Os profissionais dessa área têm a responsabilidade de cuidar de quem necessita de apoio, utilizando todos os recursos disponíveis para garantir o bem-estar dos pacientes. Isso não ocorre por acaso: a escolha da profissão médica é frequentemente motivada por um profundo desejo de ajudar o próximo.
A ética médica e os ensinamentos hipocráticos são pilares que guiam a atuação dos psiquiatras. Desde 2001, com a promulgação da Lei 10.216, que visa garantir os direitos dos pacientes com transtornos mentais, os psiquiatras têm se esforçado para fornecer tratamentos adequados conforme o diagnóstico e o quadro clínico de cada indivíduo. A compreensão detalhada de elementos como diagnóstico, evolução e prognóstico é vital para um tratamento eficaz, conforme delineado na Lei do Ato Médico, estabelecida em 2013.
Desafios da Psiquiatria Preventiva
A psiquiatria, como qualquer outra área da medicina, deve ser abrangente, mas ainda enfrenta um desafio cultural significativo: a falta de uma abordagem preventiva. Enquanto especialidades como cardiologia e ginecologia já implementaram check-ups anuais, a psiquiatria não desfruta desse mesmo reconhecimento. A ideia de um check-up psiquiátrico, por exemplo, é uma aspiração que muitos especialistas desejam ver se concretizar. O tratamento psiquiátrico, em sua essência, deve ser ambulatorial, com milhões de pessoas sendo avaliadas diariamente, mas a internação ainda é necessária em casos de risco para a vida do paciente ou de terceiros.
Com a evolução dos tratamentos psiquiátricos desde a década de 1950, especialmente a partir dos anos 1990, houve uma considerável redução na necessidade de internações. Entretanto, a internação é uma medida que não pode ser completamente eliminada, pois, segundo a medicina atual, ela continua sendo um recurso indispensável quando necessário. Infelizmente, a luta antimanicomial, que visava proteger os direitos dos pacientes, resultou no fechamento de 75% dos leitos psiquiátricos no Brasil nas últimas décadas, deixando muitos pacientes vulneráveis e sem cuidados adequados.
A Situação Atual dos Leitos Psiquiátricos no Brasil
Uma portaria de 2015 estabeleceu que deveria haver um leito para cada 23.000 habitantes, o que equivale a apenas 0,04 leitos a cada 1.000 pessoas. Essa proporção é alarmante e não atende à recomendação do Conselho Federal de Medicina (CFM), que sugere pelo menos 0,45 leitos por 1.000 habitantes. Em Campo Grande, por exemplo, a demanda é de cerca de 450 leitos, mas atualmente a cidade conta com menos de 100 leitos públicos. Essa situação é preocupante e revela a necessidade urgente de melhorias no atendimento psiquiátrico.
Os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) desempenham um papel crucial nesse cenário, oferecendo direcionamento e atendimento, mas é importante destacar que eles não substituem o tratamento hospitalar. O CFM alertou para o baixo número de leitos psiquiátricos disponíveis no Brasil, comparando a situação com países como Inglaterra e Canadá, que apresentam médias significativamente mais altas de leitos psiquiátricos por 1.000 habitantes, com 0,58 e 1,9, respectivamente.
A Necessidade de Tratamento Digno
Destruir os leitos psiquiátricos é uma abordagem desumana. O que realmente deve ser buscado é garantir um tratamento digno e adequado para cada paciente. É fundamental priorizar a modalidade ambulatorial, mas sem negligenciar a hospitalização quando esta se faz necessária. Se conseguirmos proporcionar condições adequadas para o tratamento, poderemos exercer a medicina de forma plena, cumprindo o juramento hipocrático. No final das contas, tanto os pacientes quanto a saúde mental da sociedade merecem esse comprometimento.

