Uma Vida Entre a Cultura e o Cárcere
No coração do Rio de Janeiro, mais precisamente no bairro da Glória, nasceu Julinho Barroso, um homem que, aos 58 anos, trilhou um caminho repleto de arte e luta. Produtor cultural, operador de som e criador de conexões, Julinho se tornou uma figura emblemática nas noites cariocas, contribuindo ativamente para a efervescência cultural da cidade.
A trajetória singular de Julinho, que já foi compartilhada em fragmentos nas redes sociais, agora ganha vida em um livro chamado “Dias de glória, noites de cárcere – A história de Julinho Barroso”. A obra, escrita por Marcus Galiña, amigo de longa data e também ator e diretor teatral, propõe um mergulho profundo na vida deste agitador cultural, que passou quase nove anos sob a sombra de uma prisão injusta.
O lançamento do livro está marcado para o dia 17 de março, às 18h, em um evento gratuito no Circo Voador, localizado sob os icônicos Arcos da Lapa. O público poderá desfrutar de um sarau que mistura música, poesia e performances, além de uma sessão de autógrafos com o autor.
Com 336 páginas, a obra mistura ficção e realidade, narrando a experiência dura e intensa de Julinho, que foi privado de sua liberdade de maneira injusta. O livro não apenas relata os eventos da prisão, mas também resgata memórias de uma vida rica em cultura, que remonta muito antes de sua detenção.
A narrativa de Galiña traça um percurso pela infância, juventude e maturidade de Julinho, revelando como o sistema penal brasileiro opera e expõe o racismo estrutural que transforma pessoas negras em alvos de violências e injustiças.
Ademais, a escrita de Galiña é marcada por um tom bem-humorado e próximo da oralidade, oferecendo uma perspectiva única sobre a vida de Julinho. O autor evita idealizações, apresentando um personagem multifacetado, que, embora impulsivo e contraditório, reflete a complexidade da condição humana e as escolhas que a vida impõe.
A prisão, longe de ser um acontecimento isolado, é retratada como um sintoma de uma estrutura social que normaliza a violência. Julinho, que antes de se tornar uma vítima do sistema, foi um coroinha exemplar na Paróquia Sagrado Coração de Jesus, na Glória, é um testemunho do impacto das condições sociais e raciais que permeiam o Brasil.
“Às vezes, brinco dizendo que este é um livro ‘escrito em primeira pessoa terceirizada’. Sendo dramaturgo, encarei Julinho como um personagem da cidade. Como resultado, estilizei e fantasiei um pouco a história, pois a liberdade de expressão é fundamental. Essa escolha também tinha um propósito prático: proteger identidades e evitar possíveis processos judiciais”, destaca Galiña.
A amizade entre Galiña e Julinho começou em 2013, dentro de um movimento artístico chamado Reage Artista. No ano seguinte, eles fundaram o Ocupa Lapa, uma ocupação cultural que revitalizou os Arcos da Lapa com seis edições em apenas um ano e meio. Posteriormente, idealizaram o Ocupa MinC, um projeto que gerou uma conversa importante entre os dois.
A ideia de escrever um livro sobre a história de Julinho foi discutida por um tempo antes de se concretizar em 2018. Juntos, criaram projetos inovadores, incluindo uma iniciativa educativa nas escolas municipais do Rio de Janeiro, até que decidiram realmente se dedicar à escrita deste romance que promete tocar profundamente a vida de quem o lê.

