O Legado de Cuidado e Amor pelos Animais
O número exato é difícil de determinar, mas Angela Moraes estima que sua filha, Alice, resgatou mais de 300 cães ao longo de sua vida. A jovem veterinária faleceu em 2022, enquanto estava em um show em Porto Alegre, e desde então, sua família tem se dedicado a dar continuidade ao trabalho que ela começou. O caso, que gerou polêmica devido à alegações de negligência no atendimento à Alice, agora traz à tona o compromisso da família com os animais que ela tanto amava.
Desde resgates de ninhadas inteiras até cães atropelados, a casa da família Moraes se transformou em um abrigo para todos os tipos de animais. Atualmente, 24 cães vivem com a família, que decidiu manter vivo o legado de amor e dedicação deixado por Alice. Angela recorda que antes da tragédia, a filha era a força motriz por trás das adoções, utilizando suas redes sociais para espalhar a palavra e encontrar lares para os animais. “Ela deixava um cachorro para cada um de nós”, revela uma amiga.
A família abraçou essa missão e, embora o cenário tenha mudado desde 2022, eles têm se esforçado para continuar o trabalho que Alice iniciou. “A maioria dos animais que resgatamos acaba ficando com a gente”, confessa Angela. O apego já é evidente: muitos cães ganharam um nome e um espaço aconchegante dentro da casa. “Cada um é diferente e especial à sua maneira”, afirma André, pai de Alice.
Entre os cães atualmente sob os cuidados da família, Estrela e Betânia são apenas alguns exemplos de como a vida da família se entrelaçou com os animais resgatados. Cada um dos 24 cães tem uma história única, e a presença deles traz à família um sentimento de continuidade daquilo que Alice tanto valorizava. “Eu considero como meus filhos”, diz André, refletindo sobre o amor que sente por cada um dos animais.
O sonho de Alice com os animais
Alice Moraes sonhava em criar um serviço de resgate eficiente para animais abandonados, um verdadeiro “SAMU dos bichos”. Em sua trajetória acadêmica, ela defendia que não se tratava apenas de criar um abrigo, mas um sistema em que cada animal fosse tratado com carinho, vacinado, castrado e preparado para encontrar um novo lar.
Com o apoio da família, a casa foi adaptada para comportar canis, um espaço de cuidados e até um pequeno hotel para cães de vizinhos. O pai de Alice planejava se aposentar para trabalhar ao lado da filha, ajudando a realizar o sonho dela. “Eu ia me tornar funcionário dela”, conta André, emocionado com a ideia de passar mais tempo trabalhando com a filha, ajudando no que era sua verdadeira paixão. Para ele, a missão de Alice é um projeto que agora se tornou um compromisso familiar.
Os 24 cães vivem confortavelmente entre a casa e os canis, que são bem equipados e cuidados. Os animais não ficam presos, podendo entrar e sair quando desejarem, e a rotina é cuidadosamente respeitada. Angela se certifica de que cada um recebe a ração apropriada, além dos devidos cuidados médicos, e sempre que possível, o silêncio à noite é mantido para respeitar os vizinhos. “A gente tenta ser respeitoso, mas a alegria deles também é a nossa”, afirma.
O amor incondicional por animais
Desde criança, Alice demonstrou um carinho especial por animais, sempre parando na rua para alimentá-los e cuidar deles. A história do Carvão, um filhote resgatado pela família, é apenas uma das muitas que ilustram sua empatia. A mudança para uma casa maior foi motivada pela vontade de cuidar de mais bichinhos. Com o passar do tempo, Alice se tornou uma verdadeira protetora dos animais, resgatando-os a cada retorno da faculdade.
Apesar das dificuldades, a família mantém a essência do que Alice criou. Angela afirma que a cada novo resgate, o espírito da filha está presente, e cada animal que chega à casa é uma nova oportunidade de continuar sua obra. Nos últimos meses, a família tem conseguido reunir histórias e registros para manter viva a memória da filha e os aprendizados que ela deixou.
A tragédia que mudou tudo
O dia 16 de julho de 2022 marcou um antes e um depois na vida da família Moraes. Alice, ao passar mal durante um show da cantora Luísa Sonza, faleceu tragicamente. O caso gerou revolta e mobilizou a opinião pública, uma vez que denúncias sobre a negligência no atendimento chegaram às redes sociais. A dor pela perda ainda é palpável, e o clamor por justiça segue vivo na memória de todos que conheceram Alice.
Após um prolongado processo investigativo, as conclusões do Ministério Público do RS foram de que não houve negligência comprovada. Para os familiares, no entanto, a luta pela memória de Alice continua. A história dela serve não apenas como um testemunho de amor pelos animais, mas também um lembrete da importância do cuidado e da compaixão, virtudes que eles tentam perpetuar todos os dias na nova missão que abraçaram.

