Cineasta transforma desafio em arte
Quando a cineasta Lúcia Murat enfrentou a proibição de entrevistar alunos de escolas públicas de ensino médio no Rio de Janeiro, ela não se deixou desanimar. Em vez de desistir, decidiu adaptar a abordagem e levou os estudantes para uma sala fictícia, recriando o ambiente escolar. Mesmo em um cenário artificial, as expressões autênticas e assertivas dos jovens superaram todas as expectativas, destacando-se como um dos momentos mais marcantes do documentário ‘A Hora do Recreio’, que está em exibição no cinema Belas Artes.
Em suas próprias palavras, Lúcia compartilha: ‘Eu tinha ido várias vezes à escola, os meninos me conheciam. Eles tinham essa confiança. Quando fomos proibidos de filmar, me avisaram: ‘Olha, você vai ter que mudar o filme, porque não pode fazer no ensino médio’. E eu fui enfática: ‘Não, eu quero fazer com o ensino médio’. Assim, resolvemos transformar a filmagem em algo parecido com um filme de ficção, alugando uma locação e contratando uma van para levar os meninos até lá. Foi uma experiência surpreendente.’
Uma experiência genuína
Lúcia Murat, ao relembrar o momento, admite o medo que sentiu: ‘Eu estava com muito medo, principalmente de como eles reagiriam em um lugar que não fosse a escola, com uma atriz interpretando a professora, já que não podia ser a mesma deles para evitar problemas’. Surpreendentemente, a interação dos alunos com a atriz Leandra Miranda foi além do esperado. ‘Lá em Berlim, onde o filme foi exibido no início do ano passado, ninguém acreditou que ela não era a professora daquela turma. Leandra se integrou completamente e começou a compartilhar experiências de vida. Foi lindo’, destaca a cineasta.
A profundidade das questões abordadas entre os jovens de hoje, especialmente nas esferas escolar e familiar, é um ponto central no documentário. Entretanto, Lúcia frisa que ‘A Hora do Recreio’ não deve ser visto como um tratado sociológico. ‘Não se deve considerar que é uma representação da juventude brasileira, mas sim que há uma esperança imensa nela, refletindo uma capacidade de resistência incrível’.
Do teatro à tela
A inspiração para o filme veio após anos de convivência com grupos de teatro de comunidades periféricas, em projetos anteriores como ‘Quase Dois Irmãos’ (2004) e ‘Maré, Nossa História de Amor’ (2007). ‘Sempre admirei o trabalho desses jovens. Infelizmente, em filmes de ficção, muitas vezes, eles são retratados como bandidos. Meu desejo era criar um espaço onde pudessem se expressar de forma autêntica, e esse espaço seria a escola’.
Além das cenas em sala de aula, o filme também inclui uma parte em que os jovens encenam ‘Clara dos Anjos’, de Lima Barreto. ‘Como a linguagem é muito antiga, com termos que eles não conheciam, começaram a fazer piadas sobre as histórias. Percebi que essa era a chave. A única maneira de tornar o filme contemporâneo era permitir que eles fossem eles mesmos’, explica a diretora.
Promovendo o diálogo
A proposta de ‘A Hora do Recreio’ é estimular o diálogo. ‘Isso é essencial, assim como a possibilidade de os alunos visitarem outros espaços, como teatros, cinemas e museus. A curadoria do festival de Berlim destacou que gostou do filme por não retratar os jovens como vítimas. Isso foi crucial para mim. Terminei o filme com eles sendo aplaudidos’, diz Lúcia, com orgulho.
Em um futuro próximo, a cineasta já se prepara para lançar outro projeto, ainda sem título, que abordará as histórias de três sobreviventes da tortura durante a ditadura, incluindo a própria Lúcia, que farão uma viagem do Rio de Janeiro até o sertão da Bahia, local onde líderes da luta armada, Carlos Lamarca e Zequinha Barreto, foram mortos em 1971. ‘É uma viagem em direção à nossa memória’, sintetiza Lúcia, que tem feito da resistência à ditadura um tema recorrente em sua filmografia.

