Reuniões Cruciais no Palácio Itamaraty
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva realiza reuniões no dia de amanhã com figuras proeminentes da União Europeia, incluindo a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, e o presidente do Conselho Europeu, António Costa. Os encontros acontecerão no Palácio Itamaraty, no Rio de Janeiro, um dia antes da assinatura do aguardado acordo bilateral entre o Mercosul e a União Europeia, que ocorrerá em Assunção, capital do Paraguai, país que atualmente ocupa a presidência temporária do bloco sul-americano.
Este acordo, que tem grande relevância econômica e política, poderá ampliar a margem de manobra do Brasil no cenário internacional. Lula, que não estará presente na cerimônia de assinatura em Assunção, será representado pelo ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, que acompanhará representantes da diplomacia dos outros países do Mercosul, entre eles o presidente paraguaio, Santiago Peña, e Javier Milei, presidente da Argentina.
Prioridade ao Diálogo Brasil-UE
As reuniões com os líderes europeus servirão para discutir detalhes do tratado de livre comércio e uma agenda internacional comum, incluindo a situação da Venezuela. O Brasil e a União Europeia têm criticado a instabilidade política no país vizinho e a recente detenção do presidente Nicolás Maduro, ressaltando a necessidade de uma transição pacífica. O bloco europeu, embora não reconheça a legitimidade do governo Maduro, manifestou a intenção de apoiar um processo pacífico de mudança.
Enquanto o Brasil também não reconhece Maduro como presidente, a posição brasileira se alinha à da UE, ao classificar as ações dos Estados Unidos na região como uma “afronta gravíssima à soberania”. Essa sinergia entre Brasil e União Europeia poderá ser um ponto de discussão durante as reuniões de amanhã, que buscam fortalecer laços diplomáticos e comerciais.
Impacto da Ausência de Lula em Assunção
De acordo com João Alfredo Lopes Nyegray, professor da PUC do Paraná e especialista em negócios internacionais, a ausência de Lula na assinatura do acordo pode ser vista como um fator que diminui o peso do Brasil no Mercosul. Ele destaca que havia uma expectativa de que a assinatura fosse feita quando o Brasil ainda ocupava a presidência rotativa, que foi encerrada em dezembro do ano passado.
Apesar dessa ausência, Nyegray argumenta que as reuniões no Rio de Janeiro são um sinal de que o Brasil continua a exercer uma liderança técnica e política no bloco. “O Brasil é, sem dúvida, o ator mais relevante, mas opta por exercer essa liderança através de coordenação técnica e política, ao invés de estar presente na cerimônia”, comenta. Para ele, Lula parece acreditar que manter uma posição política forte e mostrar descontentamento com o timing da Europa é mais vantajoso que simplesmente participar do evento em Assunção.
Visão Estratégica de Lula para o Mercosul
A cientista política Ludmilla Culpi reforça que as reuniões de Lula indicam uma priorização das relações bilaterais com a União Europeia em relação à parceria Mercosul-UE. “Ao se concentrar no diálogo direto com Bruxelas, Lula busca garantir que as expectativas europeias estejam alinhadas e que o texto final do tratado e sua narrativa política estejam bem definidas antes da assinatura”, explica.
Essa abordagem reforça a posição diplomática do Brasil como um interlocutor fundamental dentro do Mercosul. Culpi também observa que separar questões sensíveis, como a crise na Venezuela, de celebrações diplomáticas é uma estratégia prudente. “É importante evitar que prioridades setoriais se misturem com disputas políticas regionais, o que poderia prejudicar a coesão do bloco”, conclui.

