Um Marco na Carreira de Bethânia
No dia 17 de janeiro, tive a oportunidade de retornar ao palco do Vivo Rio para uma experiência única: a gravação do espetáculo que celebra os 60 anos de carreira de Maria Bethânia. Desde a década de 1970, acompanho a trajetória dessa artista icônica, e é impossível não se emocionar ao vê-la se apresentar. O show, que estreou em 6 de setembro de 2025, teve como propósito não apenas entreter, mas também eternizar a mágica que acontece ao vivo.
O evento dessa noite marcava o início da captação audiovisual, e o ambiente estava repleto de expectativa, já que seria uma das últimas oportunidades de testemunhar essa performance ao vivo. A platéia estava dividida em mesas, o que trouxe um clima intimista ao espetáculo. No dia seguinte, 18 de janeiro, Bethânia encerraria a turnê, completando o registro da apresentação com o público participando de uma maneira ainda mais vibrante.
Alterações no Roteiro e a Essência do Canto
Um aspecto fascinante da carreira de Bethânia é sua capacidade de transformar seus shows com o passar do tempo. Desde a minha primeira visita ao espetáculo, notei que algumas músicas foram cortadas do roteiro original, que já era bastante audacioso. A cantora sempre se destacou pelo canto intenso e teatral que, quando em cena, se torna ainda mais poderoso.
Um exemplo disso é a recente gravação do samba “Vera Cruz”, que mostra como a interpretação ao vivo de Bethânia dá vida à canção de uma forma que um estúdio não consegue capturar. Assim, quando vi que “Mar e lua” foi a primeira música a ser retirada do repertório, senti um misto de saudade e compreensão. Essa canção, que se encaixava perfeitamente na proposta do show, foi substituída por “Olhos nos olhos”, de Chico Buarque. Por mais que eu entenda a importância dessa obra na carreira de Bethânia, a troca me deixou um pouco apreensivo.
A gravação de “Olhos nos olhos” foi um divisor de águas, pois trouxe à tona a força da mulher protagonista, que consegue se reerguer após um rompimento. Essa musicalidade ajudou Bethânia a conquistar o reconhecimento nas emissoras de rádio há cinquenta anos, tornando-a uma artista de sucesso. Em sua apresentação, a música foi a mais aplaudida da noite, criando um efeito quase catártico entre o público.
A Ausência de Músicas Queridas
Por outro lado, a omissão de outras faixas, como “Gás neon” de Gonzaguinha e “Eu mais ela” de Chico César, já havia se tornado uma expectativa em apresentações anteriores, especialmente em São Paulo e Salvador. O show, que conta com cinco músicas inéditas, sentiu a falta dessas composições, e nenhuma nova canção foi adicionada ao seu lugar.
“Eu mais ela” é uma bela contribuição de Chico César e representa bem a sonoridade potente que Bethânia traz ao seu repertório. Sinto que essa música merecia um registro ao vivo, assim como “Vera Cruz”, para que não caia na obscuridade da história da artista.
A Performance e Expectativas
O que realmente impressionou foi a performance vocal de Bethânia na gravação do dia 17. Ao contrário do que muitos poderiam imaginar, a cantora não estava em modo automático; ela trouxe uma energia renovada ao palco. No entanto, ao observar o andamento do show, percebi que faltava um brilho que caracterizava suas apresentações anteriores na mesma casa. O clima parecia mais contido, mas o público ainda demonstrava entusiasmo.
Neste domingo, com a plateia devidamente acomodada na pista, as expectativas são de que o clima seja ainda mais eletrizante. E todos nós, presentes, aguardamos ansiosos para sentir a chama que sempre caracteriza os shows dessa grande artista.

