Aumento da Obesidade Infantil e Propostas de Combate
O avanço da obesidade infantil no Brasil tem gerado preocupações entre especialistas. A médica endocrinologista Maria Edna de Melo defende a implementação de um imposto de 30% sobre bebidas açucaradas e a proibição de ultraprocessados nas escolas. Segundo ela, a crescente acessibilidade de alimentos não saudáveis, especialmente nas instituições de ensino, contrasta com o aumento nos preços de frutas, verduras e legumes. De acordo com a médica, a inflação dos produtos saudáveis já superou em 40% a dos refrigerantes. “Como exigir que as crianças consumam meio quilo de frutas e verduras diariamente, conforme recomendado pela Organização Mundial da Saúde, se grande parte da população vive com um salário mínimo?” questiona Maria Edna.
No Brasil, as escolas que recebem verbas federais devem utilizar esses recursos apenas para a aquisição de alimentos saudáveis. Entretanto, ainda não há regulamentação nacional para cantinas em instituições privadas, gerando uma lacuna que pode prejudicar a saúde dos alunos.
Sinais Preocupantes de Saúde em Crianças com Sobrepeso
Um estudo recente da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), publicado no International Journal of Obesity, identificou inflamações e disfunções endoteliais precoces em crianças com sobrepeso e obesidade. Esses achados enfatizam que o excesso de peso pode aumentar o risco de doenças cardíacas e problemas vasculares, mesmo na infância. Em 2025, estima-se que 16,5 milhões de crianças e adolescentes entre 5 e 19 anos estejam acima do peso no Brasil. Isso representa cerca de 40% dessa faixa etária, com projeções que indicam que para 2040 esse índice pode ultrapassar 50%, segundo a Federação Mundial de Obesidade.
Para discutir as causas e soluções para o aumento da obesidade infantil, o programa Bem-Estar entrevistou Maria Edna de Melo, que também é chefe da Liga de Obesidade Infantil do Hospital das Clínicas da USP e atua em várias associações para combater a obesidade e suas consequências.
Fatores que Contribuem para a Obesidade
A endocrinologista ressalta que a obesidade é uma doença multifatorial, mas tem na alimentação um dos principais fatores. Nos últimos anos, houve um aumento na disponibilidade de alimentos ultraprocessados e calóricos. “Nos alimentamos de maneira mais calórica e fácil, resultando em um acúmulo de gordura no corpo”, explica.
Esse problema é mais acentuado entre populações de baixa renda, onde fatores como marketing agressivo e custos elevados de alimentos saudáveis restringem as escolhas alimentares. “A escolha nem sempre é tão livre quanto parece”, afirma Maria Edna.
Impactos da Obesidade na Saúde Física e Mental
As consequências da obesidade podem surgir cedo na vida, com crianças desenvolvendo problemas de locomoção, dores articulares e condições metabólicas como hipertensão, colesterol elevado e até diabetes. A médica alerta que doenças que antes eram comuns em adultos já estão aparecendo em crianças. “Um estudo indica que uma criança de 5 anos com obesidade grave pode ter uma expectativa de vida reduzida para 43 anos”, revela.
Além dos problemas físicos, o estigma social também afeta a saúde mental das crianças obesas. Pesquisas mostram que a qualidade de vida dessas crianças pode ser comparável ou até inferior à de crianças com câncer. Enquanto as crianças com câncer costumam receber apoio, aquelas que enfrentam a obesidade frequentemente são alvo de bullying e discriminação, o que pode resultar em problemas como ansiedade e depressão. “Infelizmente, muitas vezes a escola contribui para essa estigmatização”, destaca a endocrinologista.
Estratégias para Combater a Obesidade Infantil
O planejamento alimentar é uma das recomendações de Maria Edna para as famílias. A sugestão é que os pais organizem as compras e o preparo das refeições durante o fim de semana para evitar escolhas alimentares rápidas e pouco saudáveis durante a semana. Além disso, ela aconselha a evitar a presença de ultraprocessados em casa.
A endocrinologista também alerta para a importância de ler os rótulos dos alimentos, especialmente em relação aos adoçantes, que podem ser prejudiciais em excesso. “Se encontrar um ingrediente que não conhece, pense duas vezes antes de comprar”, aconselha.
Políticas Públicas e Atividade Física
Embora exista uma diretriz que exige que as escolas públicas priorizem alimentos saudáveis, a falta de regulação nas cantinas das escolas privadas continua a ser um problema. Maria Edna defende a aprovação de leis que restrinjam a venda de ultraprocessados nas instituições educacionais. Além disso, sugere que a taxação de bebidas açucaradas, com uma alíquota de 30%, poderia ajudar a reduzir o consumo e melhorar a saúde pública. “É fundamental que as autoridades de saúde implementem medidas que ajudem a reduzir o consumo de refrigerantes entre as crianças”, afirma.
Outro aspecto que agrava a situação é o sedentarismo. Muitas crianças passam grande parte do tempo em frente às telas, o que limita as brincadeiras ao ar livre. “É responsabilidade da sociedade enfrentar a obesidade infantil, não apenas dos indivíduos”, conclui Maria Edna, acentuando a necessidade de um esforço colaborativo para reverter esse cenário.

