O Legado do Palácio Monroe
Inaugurado na gestão de Souza Aguiar, o Palácio Monroe se tornou um ícone arquitetônico carioca e um símbolo da história da capital fluminense. Com a sua fachada imortalizada na antiga nota de 200 réis e uma variedade de souvenirs que representavam a construção, o palácio abrigou a Câmara dos Deputados entre 1914 e 1922 e o Senado a partir de 1925. Um dos momentos mais notáveis ocorreu em 1920, quando suas instalações foram majestosamente iluminadas para receber o rei Alberto da Bélgica. No entanto, a trajetória do palácio mudou com a revolução de 1930, transformando-se em quartel-general das tropas de Getúlio Vargas. O Senado retornaria ao local em 1946, permanecendo até a transferência da capital para Brasília, com a estrutura conhecida como “Senadinho” resistindo até 1975.
Na década de 1970, o cenário de esplendor do Monroe já era uma lembrança distante. O debate sobre sua preservação ganhou força, especialmente quando o Instituto dos Arquitetos do Brasil (IAB) sugeriu ao Instituto do Patrimônio Histórico Nacional (Iphan) o tombamento do conjunto arquitetônico da Avenida Central. Contudo, a proposta para preservar o Monroe foi rejeitada pelo renomado arquiteto Lucio Costa.
A Controvérsia da Demolição
“O Monroe conquistou o primeiro prêmio internacional da arquitetura brasileira, mas não se alinhou com a visão dos modernistas, que se tornaram influentes”, comenta o cineasta Eduardo Ades, diretor do documentário “Crônica da Demolição”, que retrata a queda do palácio e está disponível online. O arquiteto modernista considerou o estilo eclético do Monroe como um “hiato”, algo que não pertencia à narrativa da arquitetura nacional.
Com a vitória da visão modernista, a discussão em torno da demolição do Monroe tomou diferentes rumos, gerando teorias que vão desde a necessidade de obras do metrô até uma suposta animosidade do então presidente, general Ernesto Geisel, em relação a um ex-colega de armas da família de Souza Aguiar. Embora a intervenção no Centro exigisse a remoção da escadaria do palácio, os trilhos do metrô acabaram seguindo um novo trajeto, desviando do local onde, atualmente, estão a Praça Mahatma Gandhi e um estacionamento subterrâneo.
Os Bastidores da Demolição
Documentos da Secretaria de Patrimônio da União revelam que instituições públicas, como a Justiça Federal, expressaram interesse em ocupar o palácio antes da decisão final do presidente pela demolição, que transformou a área em um espaço público. A licitação para a demolição foi ganha pela Demolições Aghil Comércio de Ferro Ltda, que de acordo com as cláusulas do contrato, pagou ao governo para realizar o serviço e ficou com o material do edifício, permitindo à empresa obter lucro com a venda dos itens retirados.
O processo de demolição, que deveria ser concluído em 118 dias a partir de 1976, se prolongou por todo o ano. A empresa alegou dificuldades, como a resistência da argamassa feita com óleo de baleia, que complicou ainda mais o trabalho. O custo da operação foi recuperado apenas com a venda de dois dos quatro leões de mármore que adornavam o palácio: um par hoje é encontrado em uma fazenda em Minas Gerais e o outro está no Instituto Brennand, em Pernambuco.
Sobreviventes do Passado
Curiosamente, alguns itens danificados durante a invasão golpista do Congresso em 8 de janeiro de 2023 já haviam sobrevivido à demolição do Monroe. Entre eles, um tapete persa, uma mesa e uma cadeira do século XIX, além de uma expressiva pintura de Gustavo Hastoy. Atualmente, o quadro, que mede 2,90m por 4,41m e retrata a assinatura da primeira Constituição da República, apresenta danos na parte inferior e arranhões na moldura de cedro banhada a ouro, aguardando restauração.

