A Sátira que Gerou Controvérsia
No coração de Olinda, Pernambuco, a artista e ativista Catarina DeeJah está no centro de uma polêmica que envolve a Bet Esportes da Sorte, uma das principais empresas de apostas do Brasil. DeeJah, conhecida por suas obras que combinam arte visual e música, criou um projeto chamado “Bet, a feia”, que foi inspirado pela insatisfação com os resíduos deixados pela empresa durante o carnaval do ano passado. Com uma estética que lembra a icônica telenovela ‘Betty, a feia’, a artista propõe uma crítica social através de sua arte.
DeeJah definiu-se como uma “artista prática”, utilizando ironia e deboche para gerar reflexões. No entanto, a resposta da Bet Esportes da Sorte foi abrupta. Em janeiro deste ano, a artista recebeu uma notificação extrajudicial solicitando a retirada de suas obras das redes sociais e de circulação, alegando uso indevido da marca. A notificação causou surpresa, uma vez que a intenção de DeeJah era, segundo ela, capturar o espírito brincalhão e carnavalesco de sua cidade.
A Reação e o Contexto
Em um relato nas redes sociais, DeeJah expressou sua surpresa com a notificação, ressaltando que sua criação tinha tudo a ver com o carnaval e a cultura local. É importante notar que esta não é a primeira vez que a artista se vê em conflito com a empresa. Após o carnaval anterior, quando publicou fotos do entulho deixado pela Bet Esportes, foi abordada por um representante que sugeriu um pagamento para que ela fizesse uma identidade visual para o ano seguinte. “Eu não estava agindo de má fé”, ressaltou, referindo-se ao contato direto que recebeu.
A nossa equipe de reportagem tentou obter uma posição da empresa, que não retornou ao pedido de comentários. Porém, especialistas como Flávio Pougy, um advogado em propriedade intelectual, vêm defendendo a posição de DeeJah, considerando seu trabalho uma forma legítima de paródia que não infringe os direitos da marca, mas sim caracteriza um ato de crítica e denúncia.
Preocupações Sobre Saúde e Cultura
No desenrolar dessa história, DeeJah também trouxe um alerta sobre os problemas sociais associados às apostas. Com o aumento significativo de casos de vícios relacionados a jogos, a artista se preocupa com o impacto dessas práticas na sociedade. A declaração dela é contundente: “Os auxílios-doença por vício em jogos aumentaram 2.300% no Brasil entre 2023 e 2025, segundo dados do INSS.” Essa realidade toca em um ponto sensível, já que muitas famílias estão sendo afetadas.
Após receber a notificação, DeeJah optou por adaptar seu projeto. Agora, ela está utilizando uma identidade visual independente e lançou um manifesto intitulado “Desbanque a banca”, focando em ações de conscientização e preservação ambiental. Além disso, planeja distribuir materiais sustentáveis pela cidade, enfatizando a necessidade de abordar a questão das apostas de maneira crítica e responsável.
A Questão do Patrimônio Cultural
Como moradora do sítio histórico de Olinda, DeeJah está preocupada não apenas com a situação das apostas, mas também com a preservação cultural de sua cidade. Ela critica a exploração turística e a especulação imobiliária, que, segundo ela, ameaçam o caráter tradicional do carnaval olindense. “A atual gestão não parece entender a importância da preservação cultural”, afirmou, referindo-se à prefeita Mirella Almeida e sua política voltada para o turismo.
DeeJah lamenta a perda da tradição onde as famílias decoravam as ruas durante o carnaval. “Hoje, as festas estão sendo vistas apenas como uma oportunidade de lucro”, completou. A Bet Esportes da Sorte, além de patrocinar o carnaval, também está envolvida em controvérsias relacionadas a práticas ilegais e lavagem de dinheiro, o que adiciona um elemento ainda mais complexo à discussão sobre sua presença na folia.
De acordo com Rodrigo Cantarelli, pesquisador da Fundação Joaquim Nabuco, a situação não é nova. Ele compara a influência das casas de apostas no carnaval com a atuação de empresas de bebidas que dominavam o cenário festivo anteriormente. “O que incomoda é que as apostas estão tomando conta do que deveria ser uma celebração comunitária”, finalizou.

