O Papel dos Artesãos na História do Rio de Janeiro
Por muito tempo, a narrativa sobre a história colonial do Rio de Janeiro foi dominada por uma visão que limitava o protagonismo a governadores, comerciantes abastados e autoridades da Coroa. Esse olhar, embora comum, revela-se profundamente incompleto. Pesquisas recentes, publicadas na revista Varia História pela historiadora Beatriz Catão Cruz Santos, lançam luz sobre uma cidade multifacetada, onde artesãos, oficiais mecânicos e irmandades católicas tiveram papéis cruciais na formação da vida urbana, social e simbólica do Rio, especialmente em seu atual Centro histórico.
A investigação mostra que carpinteiros, pedreiros, marceneiros, mascates, ferreiros e ourives não eram figuras marginalizadas, mas sim integrantes ativos da dinâmica urbana. Eles não apenas construíam casas e igrejas, mas se engajavam na vida pública, lutando por reconhecimento social. A religião, profundamente enraizada na cultura da colonização portuguesa, servia como uma via legítima para afirmar sua presença no corpo social do antigo Rio de Janeiro, repleto de travessas, ruelas e oratórios de rua.
Irmandades: Pilares da Sociabilidade no Século XVIII
As irmandades católicas emergem como verdadeiros pilares da sociabilidade da época. No contexto do século XVIII, pertencer a uma irmandade, para um leigo — que não era clérigo —, era um ato que transcendia a devoção. Era uma forma de se afirmar politicamente e socialmente. Essas associações de fiéis organizavam festas, missas solenes e grandes procissões que percorriam as principais ruas do Centro, da antiga Rua Direita até as imediações das igrejas do Rosário, da Misericórdia e do Carmo. Nessas celebrações, os artesãos e trabalhadores se destacavam, marchando com visibilidade e hierarquia claramente definidas.
Marchar em procissões representava um ato de afirmação social. O estudo evidencia que esses oficiais mecânicos contribuíam financeiramente para a construção de altares, imagens, estandartes e ornamentos, além de disputarem posições de destaque nos cortejos. Questões como quem marchava à frente, quem carregava um símbolo específico ou quem doava a peça litúrgica mais elaborada tornavam-se elementos de honra e reconhecimento, reafirmando o pertencimento à cidade.
A Construção da Cidadania e a Logística das Procissões
O Centro do Rio se configurava assim não apenas como um espaço físico, mas como uma arena simbólica onde diferentes grupos sociais buscavam negociar seu lugar. A religião, longe de ser um mero elemento espiritual, transformava-se em um instrumento legítimo de inserção social, amplamente reconhecido pelas autoridades da época. Um provedor da irmandade, por exemplo, era visto como um dos cidadãos mais respeitados da cidade, exercendo influência ao lado de seus pares.
Esse estudo desmantela a concepção de que o Rio colonial se desenvolveu apenas sob uma perspectiva elitista. Revela uma cidade pulsante, construída também por mãos operárias que, ao investir na fé, buscavam visibilidade e prestígio. Essa nova leitura sobre o Centro histórico nos convida a enxergar as camadas mais profundas da história que permeia as ruas e igrejas que muitas vezes atravessamos sem perceber.
Reflexões sobre o Presente e o Futuro do Rio
As inúmeras igrejas fundadas por confrarias que resistem ao tempo, as festividades religiosas que continuam a atrair multidões e a lógica de ocupação das ruas e irmandades revelam um passado vibrante, onde a cidade pulsava de vida e não era apenas administrada por elites distantes. Além de ser um exercício acadêmico, essa pesquisa nos instiga a reavaliar nossa visão sobre a história do Rio de Janeiro, reconhecendo que a cidade não foi simplesmente gerida, mas construída e celebrada por pessoas comuns, organizadas e conscientes de seu papel social.
Compreender esse passado é fundamental para decifrar o presente. Hoje, o Centro do Rio permanece como um espaço de disputa simbólica, uma memória viva e uma identidade em constante transformação, especialmente em meio a projetos de revitalização como o Reviver. Essa fé e organização revelam um Rio mais plural, coletivo e humano do que muitas narrativas históricas se atreveram a sugerir. Assim, ao refletirmos sobre a história da cidade, nos deparamos com a força da lembrança de que o Rio sempre foi um mosaico de vozes e experiências.

