Uma Celebração da Comicidade
O riso, essa expressão tão humana, representa não apenas um escape da rotina, mas também se configura como um elemento de coesão social. Presente em diversas culturas, o riso tem significados variados, embora sempre contribua para unir povos e comportamentos. Essa ideia fundamenta a exposição “O Reinado do Riso”, que está em cartaz na Caixa Cultural. A mostra reúne uma variedade de objetos que refletem o caráter inteligente e perspicaz da cultura brasileira, incluindo fantoches, esculturas, mamulengos, fantasias, pinturas e fotografias extraídas de coleções públicas e privadas. Esses itens ajudam a narrar como as tradições populares permanecem vivas e resistem, sempre rodeadas pelo humor e pela comicidade.
A exposição começou a se formar há mais de dez anos, fruto de uma colaboração entre as universidades Estadual e Federal do Rio de Janeiro e o Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (CNFCP/Iphan). O objetivo era mapear a presença do riso nas expressões culturais brasileiras, analisando-as sob diversas perspectivas sociais e antropológicas.
Daniel Reis, um dos idealizadores da exposição, destaca que a pesquisa inicial foi amplamente inspirada por Mikhail Bakhtin, especialmente no que tange às culturas populares e à capacidade do riso de subverter normas sociais. “O riso tem a função de revelar o que muitas vezes não é dito e de romper com a ordem estabelecida”, explica Reis. A coleção do CNFCP serviu como base para reunir objetos que expressam de forma vigorosa e popular essas manifestações culturais.
Um Passeio Guiado pelo Riso
A proposta de “O Reinado do Riso” é proporcionar ao público um passeio que explora a manifestação do riso nas festas populares brasileiras. Desde o carnaval e a Folia de Reis até o Bumba Meu Boi, circo, teatro de bonecos e cordel, o riso se apresenta por meio de personagens e brincadeiras que cativam tanto o público quanto os participantes. As obras, que incluem metáforas e jogos de palavras, além de esculturas e fantasias, não apenas divertem, mas também denunciam e criticam realidades sociais.
Um exemplo ilustrativo mencionado por Reis é a figura do palhaço na Folia de Reis. “Embora a festa tenha um forte componente de devoção católica, o palhaço introduz um elemento de subversão que provoca risadas e interação com o público”, comenta. A concepção da exposição foi cuidadosamente elaborada em torno desses aspectos, reunindo acervos do CNFCP, colecionadores e pesquisadores, permitindo uma reflexão sobre como as expressões culturais evoluem ao longo do tempo.
As fantasias, como roupas e máscaras, trazem uma conexão significativa com o público, uma vez que o carnaval e outras manifestações populares são momentos em que os brasileiros se mobilizam. “É fascinante observar como o corpo se transforma para as festividades, e como as fantasias podem alcançar uma dimensão cômica. Artistas e artesãos também têm um olhar atento sobre essa expressão”, ressalta Reis. A exposição também abrange esculturas em barro e madeira, pinturas e máscaras que fazem parte do acervo apresentado.
Obras que Contam Histórias
Entre as peças de destaque estão os bonecos da Nordestina, inspirados em histórias de Jô Soares e criados pelo bonequeiro Silvio Botelho, e os palhacinhos do artesão Adauto Alves Pequeno, de Nova Iguaçu. O Boi Cabeçudo Pierrô, de Zé do Lode, do Pará, e fantasias de Clóvis para o carnaval carioca, além de pinturas naifs de Neuza Leódora e Bajado, enriquecem a exposição, que se expandiu desde sua primeira exibição em 2012, graças ao apoio de instituições e colecionadores.
A mostra não se limita apenas a uma reunião de objetos; ela se configura como um relato sobre como o riso e a brincadeira são fundamentais para manter vivas as múltiplas tradições populares do Brasil, como carnaval, Folia de Reis, Bumba Meu Boi, circo, teatro de bonecos e literatura de cordel, entre outras. Além disso, a exposição evidencia como a comicidade pode servir como uma forma de crítica social e resistência. “Nosso objetivo é mostrar a diversidade e a riqueza cultural que o riso proporciona”, conclui Reis.

