Um espetáculo que une técnica e emoção
A passagem de ROSALÍA pelo Rio de Janeiro nesta segunda-feira (10) revelou a força criativa que a cantora espanhola exerce na música contemporânea. Com duas apresentações exclusivas da “LUX Tour” na cidade, a Farmasi Arena foi palco de quase duas horas de um espetáculo que misturou rigor técnico e teatralidade de forma impecável.
No palco, a transição entre a estética urbana do álbum MOTOMAMI e a riqueza visual do disco LUX criou um contraste fascinante. As coreografias, executadas com precisão milimétrica, destacaram a entrega física da artista e seu balé, enquanto a cenografia monumental transformou o espaço em um templo de luz e som. Essa proposta visual elevou cada faixa do repertório a uma dimensão artística inédita.
Orquestra ao vivo amplia a dramaticidade do show
A presença da orquestra ao vivo integrada ao espetáculo foi outro ponto marcante. Os arranjos de cordas e metais deram profundidade dramática ao catálogo da artista, trazendo uma atmosfera que se aproximou de uma ópera moderna. Cada canção ganhou novos tons, criando uma experiência sonora única para o ambiente de arena.
A abertura com a orquestra, seguida da entrada da cantora em uma caixa durante “Sexo, violencia y llantas”, já indicava a grandiosidade do show. Além da potência vocal, as harmonias de ROSALÍA soaram cristalinas, comprovando a evolução técnica da artista nesta nova fase.
Equilíbrio entre precisão visual e carisma
A primeira parte do concerto evidenciou a precisão da produção visual. Em “Porcelana”, a dança sincronizada com luzes estroboscópicas criou uma atmosfera hipnotizante, enquanto “Divinize” utilizou tecidos para compor quadros vivos no palco, transformando-o em uma galeria de arte em movimento.
Porém, o grande diferencial de ROSALÍA é sua capacidade de quebrar a solenidade do show com um carisma natural. Ao celebrar sua estreia no Rio, ela compartilhou lembranças das férias no Brasil, falou sobre o retorno ao pão de queijo e à feijoada, e até arriscou alguns palavrões no sotaque carioca, conquistando a plateia com seu jeito espontâneo.
Esse contraste se intensificou antes de “Mio Cristo piange diamanti”, que encerrou o primeiro ato com emoção à flor da pele. Vestida com um manto dramático, a cantora ironizou os gritos da plateia, sorrindo e acolhendo o carinho do público, demonstrando domínio total do ritmo do espetáculo.
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Sonoridade e raízes em perfeita harmonia
No segundo ato, a união da orquestra com o Techno pesado da excepcional “Berghain” marcou o ápice sonoro. O solo de dança flamenca que se seguiu reafirmou o respeito da artista por suas raízes espanholas, impressionando pelo rigor físico e autenticidade técnica.
Apesar do foco no repertório recente, o resgate de sucessos antigos como “SAOKO” e “LA FAMA” mostrou a versatilidade da produção. Sob arranjos clássicos ao vivo, essas canções ganharam uma nova vida, mesclando de forma ousada a música erudita com ritmos urbanos.
Intimidade e interação com o público
A terceira parte da apresentação destacou a descontração como ferramenta para criar proximidade. A interpretação de “Can’t Take My Eyes Off You”, clássico de Frankie Valli, abriu espaço para o quadro do confessionário. A participação de Marina Sena, que compartilhou experiências sobre relacionamento aberto, gerou identificação imediata com a plateia. ROSALÍA respondeu com humor, comentando sobre a reação masculina a esses temas.
Fãs também tiveram vez, com depoimentos vindos da pista e das arquibancadas antes de “La Perla”, que contou com a delicadeza das luvas brancas do balé. Na sequência, “Sauvignon blanc” embalou um pedido de casamento, reforçando o clima poético da noite.
Ritual e celebração no encerramento
O quarto ato elevou ainda mais a conexão física com o público. ROSALÍA caminhou até o palco B para cantar “La rumba del perdón”, enquanto um turíbulo gigante espalhava fumaça pela pista, criando um ritual visual que preparou o terreno para a festa do ato final.
No encerramento, a sequência com “BIZCOCHITO” e “DESPECHÁ” incendiou a arena, transformando o local em um espaço de pura energia. A delicadeza de “Magnolias” fechou a noite com uma atmosfera intimista, coroando um espetáculo de alto nível artístico.
Um marco na música ao vivo contemporânea
Mais do que uma grande produção internacional, a passagem da turnê de ROSALÍA pelo Rio confirmou sua relevância no cenário do pop atual. Ao combinar erudição, ousadia estética e apelo popular sem recorrer ao óbvio, a cantora traça novos caminhos para a música ao vivo.
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A “LUX Tour” exibiu uma direção artística primorosa, onde a técnica serve à emoção crua. ROSALÍA mostra que a genialidade verdadeira está em reinventar a própria arte enquanto mantém o público fascinado.
Setlist da apresentação no Rio de Janeiro (10/08/2026)
I
1. Sexo, violencia y llantas
2. Reliquia
3. Porcelana
4. Divinize
5. Mio Cristo piange diamanti
II
6. Berghain
7. SAOKO
8. LA FAMA
9. LA COMBI VERSACE
10. De madrugá
III
11. Can’t Take My Eyes Off You (Frankie Valli cover)
12. La perla (quadro Confessionário com Marina Sena)
13. Sauvignon blanc
14. La yugular
IV
15. Dios es un stalker
16. La rumba del perdón
17. CUUUUuuuuuute
V
18. BIZCOCHITO
19. DESPECHÁ
20. Magnolias

