O Legado Cultural da Praça Onze
Na atualidade, onde se localiza o famoso Sambódromo da Marquês de Sapucaí, situava-se um importante pedaço do Rio de Janeiro conhecido como Praça Onze. No final do século XIX, essa região recebeu uma onda de imigrantes, incluindo judeus e, principalmente, negros vindos de diversas partes do mundo. O bairro, que foi um berço de cultura e resistência, foi demolido em 1942, mas sua memória persiste.
O livro “Quando Vem da Alma de Nossa Gente – Sambas da Praça Onze”, escrito pela renomada pesquisadora Beatriz Coelho Silva, oferece uma análise profunda da Praça Onze sob a ótica do samba. Com 224 páginas publicadas pela editora Garota FM Books, a obra não apenas revisita a história do bairro, mas também a conecta intimamente ao desenvolvimento do samba, que esteve profundamente enraizado naquela região, assim como na zona portuária do Rio, frequentemente referida como “Pequena África”, devido à sua rica herança cultural negra.
Recentemente, uma nova fotografia do Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro trouxe à tona imagens da casa onde viveu Tia Ciata, um dos nomes mais emblemáticos do samba, que realizava memoráveis rodas de samba em sua residência localizada na Praça Onze. Essa revelação mostra como a cultura do samba é indissociável da história do bairro.
No livro, a autora inicia com uma introdução que contextualiza o crescimento do bairro e, em seguida, faz uma conexão com a evolução do samba. Com uma análise de 14 canções do gênero, das quais três são de João da Baiana, a obra traz à luz a importância desse espaço musical no cenário carioca. Durante a primeira metade do século XX, a Praça Onze era um reduto vibrante de samba, atraindo produtores e artistas como Mário Reis e Francisco Alves, que buscavam as composições mais autênticas para a incipiente indústria fonográfica brasileira.
O Carnaval dos Pobres e a Memória do Bairro
De acordo com a pesquisa de Beatriz, o bairro sediava o que se chamava de “carnaval dos pobres”, que reunia cerca de 40 mil participantes, um número impressionante para a época. A obra revela que mesmo após a demolição do bairro, um resultado das políticas de reurbanização do Rio, a Praça Onze permaneceu como um importante ponto de referência musical.
A autora classifica os sambas relacionados à Praça Onze em três categorias: os que foram compostos nos anos 1930, refletindo o cotidiano dos moradores; aqueles que surgiram durante a demolição, lamentando a destruição do bairro; e os que foram escritos após os anos 1950, marcados por uma saudade nostálgica. Destaque para dois clássicos que até hoje reverberam a essência do bairro: “Tempos Idos” (Cartola e Carlos Cachaça), que evoca saudade da Praça Onze, e o samba-enredo “Bumbum Paticumbum Prugurundum” (Beto Sem Braço e Aluísio Machado), que imortaliza a Praça Onze em seus versos.
O livro também dedica um capítulo especial a João da Baiana, uma das figuras mais emblemáticas do samba, nascido e criado na Praça Onze. Sua obra e legado representam a conexão mais pura entre o samba e a riqueza de sua ancestralidade. Como cantor, compositor e percussionista, João da Baiana encarnou a essência do samba urbano e foi um dos mais importantes representantes desse movimento.
No contexto das composições de João, Beatriz Coelho Silva traz à tona músicas que não só embalaram as festas do passado, mas também ajudaram a moldar a identidade do samba no Brasil. Lançado no meio do ano passado, “Quando Vem da Alma de Nossa Gente” é uma obra que mergulha nas nuances do samba e sua relação intrínseca com o carnaval, proporcionando ao leitor uma experiência rica e envolvente.

