Entendendo a Crise de Saúde Mental no Trabalho
O aumento alarmante de afastamentos por problemas psíquicos não pode mais ser ignorado. A situação se revela complicada, envolvendo questões que vão da regulamentação das jornadas de trabalho até a equiparação salarial. Para enfrentar essa realidade, são necessárias iniciativas efetivas durante o Janeiro Branco.
O início de 2026 traz à tona uma estatística alarmante: um aumento de 493% nos afastamentos por burnout entre 2021 e 2024. Os dados do INSS mostram que os auxílios-doença por esgotamento profissional saltaram de 823 para 4.880 registros, e em 2025, apenas no primeiro semestre, já eram 3.494, representando 71,6% do total do ano anterior. O órgão, que concedeu 472,3 mil benefícios por transtornos mentais em 2024, observa um esvaziamento de suas contas enquanto o mercado parece ignorar a gravidade do problema.
Aumentos Alarmantes e Setores mais Afetados
Em 2025, o Brasil viu um crescimento de 143% nos afastamentos por transtornos mentais. Os setores mais impactados incluem a administração pública (14,9%), bancos múltiplos (14,8%) e atividades de atendimento hospitalar (8,9%), segundo dados do Observatório Digital de Saúde e Segurança (SmartLab) do Ministério Público do Trabalho. Isso indica que, em um único ano, o problema se intensificou mais do que em qualquer época anterior.
As mulheres, por sua vez, representam 64% dos afastamentos, e a idade média das pessoas afetadas é de 41 anos. Transtornos de ansiedade lideram os índices, totalizando 141 mil casos, seguidos por episódios depressivos. Ansiedade é apontada por 51% dos afastados como principal motivo, com depressão (17%), estresse (16%) e burnout (14%) na sequência.
Um Olhar Sobre os Profissionais de Saúde
Outro aspecto preocupante é o aumento de processos por erro médico, que atingiram 203 casos registrados diariamente no Brasil em 2024. O crescimento de 506% em um ano não apenas revela uma possível incompetência médica, mas também reflete uma crise estrutural, onde profissionais de saúde adoecidos enfrentam condições de trabalho precárias. A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que, anualmente, 3 milhões de mortes no mundo acontecem devido a cuidados inseguros, sendo que 30% a 36% dessas fatalidades poderiam ser evitadas com melhorias organizacionais simples.
A campanha Janeiro Branco, portanto, corre o risco de ser reduzida a um evento corporativo superficial, cheio de fotos inspiradoras e mensagens motivacionais, sem abordar a questão crítica: por que o trabalho está adoecendo tantas pessoas? Para isso, é fundamental abrir 12 frentes de debate, cada uma representando uma mudança necessária e urgente.
Janeiro: Mapeamento de Riscos Psicossociais
As empresas tentam adiar a implementação da NR-1, que exige a inclusão de riscos psicossociais. O prazo já foi prorrogado para maio de 2026, mas há esforços para postergar ainda mais. Os riscos relacionados a metas excessivas, jornadas longas e assédio moral são apenas algumas das questões que precisam ser abordadas. É vital que sindicatos e órgãos de fiscalização pressionem por uma implementação imediata, pois cada mês de adiamento representa exposição prolongada a riscos já reconhecidos.
Fevereiro: Redução da Jornada de Trabalho
A PEC 148/2025, aprovada no Senado, propõe a redução da jornada de trabalho, com a transição do sistema 6×1. Essa mudança é necessária para aliviar o estresse e a pressão que muitos trabalhadores enfrentam, mas precisa ser acompanhada de uma real mudança na organização do trabalho e de remuneração justa, evitando que a redução se torne apenas uma ilusão.
Março: Gestão Algorítmica
O uso de algoritmos em plataformas digitais de trabalho tem mostrado efeitos prejudiciais à saúde mental. A insegurança e a falta de reconhecimento entre trabalhadores nessas plataformas são preocupantes e demandam regulamentação. Uma abordagem mais ética e justa é necessária para garantir direitos e segurança aos trabalhadores.
Em Resumo: A Luta por Saúde Mental no Trabalho
Com um cenário tão alarmante, a saúde mental no trabalho demanda urgentemente ações efetivas e integradas. É preciso reconhecer que saúde mental não deve ser apenas uma preocupação de um mês, mas sim uma prioridade constante no ambiente corporativo, com o engajamento de todos os envolvidos. As mudanças que se esperam não se limitam a alterações em políticas, mas devem refletir uma transformação cultural profunda no modo como encaramos o trabalho e a vida.

