Uma tarde histórica no Caio Martins
Em 12 de março de 1978, o Estádio Caio Martins, em Niterói, viveu um capítulo marcante da história do futebol brasileiro. A seleção nacional, comandada pelo técnico Cláudio Coutinho, realizou um amistoso preparatório para a Copa do Mundo da Argentina, que ocorreria naquele ano. Nesta partida, o Brasil goleou o combinado do interior do estado do Rio de Janeiro por 7 a 0, em uma exibição que contou com a presença dos craques Zico e Rivellino, figuras que brilhariam na competição mundial.
O jogo reuniu 8.859 pagantes, e foi a única vez que a seleção canarinho atuou no Caio Martins. O adversário era composto por jogadores de clubes de Campos dos Goytacazes, Volta Redonda e São Gonçalo, formando um time competitivo do interior fluminense. Seis anos antes, o estádio já havia recebido uma apresentação do time olímpico brasileiro, mas naquela tarde de 1978, o espetáculo foi marcado pela atuação dominante da seleção principal.
Contexto político e esportivo da Copa de 1978
Segundo o historiador esportivo Rainha, a circulação da seleção brasileira por cidades fora do eixo das capitais estava alinhada a um projeto político da ditadura militar que buscava reforçar a ideia de unidade nacional por meio do futebol. “O futebol fazia parte desse projeto político de brasilidade. A seleção precisava estar em todo lugar”, afirma.
O amistoso ocorreu em um cenário de tensão política, com Brasil e Argentina governados por regimes autoritários que usaram a Copa do Mundo de 1978 como ferramenta de propaganda. “Os dois países transformaram a Copa em um campo de batalha simbólico. A Argentina buscava legitimar seu regime, e o Brasil também usava o futebol como elemento de coesão nacional”, explica o historiador.
Durante a competição na Argentina, a seleção brasileira enfrentou dificuldades, como gramados ruins e condições adversas impostas pelos anfitriões. Um episódio marcante foi o gol de Zico mal anulado no terceiro jogo, quando o árbitro encerrou a partida antes que o Galinho pudesse cabecear para a rede após um escanteio. Após essa partida, Zico foi para o banco, em parte pelas condições que prejudicavam seu estilo técnico de jogo. A vitória da Argentina por 6 a 0 sobre o Peru, que eliminou o Brasil pelo saldo de gols, também gerou suspeitas até hoje. O Mundial acabou consagrando a Argentina campeã do mundo pela primeira vez, em uma final contra a Holanda.
Domínio brasileiro e brilho dos craques na goleada
No amistoso realizado no Caio Martins, o Brasil apresentou um futebol ofensivo e rápido, com trocas de passes precisas. Zico, na época jogador do Flamengo, marcou cinco gols, igualando o recorde de gols em uma partida da seleção que pertencia a Evaristo. Rivellino, armador do Fluminense, anotou um gol e distribuiu assistências, enquanto Nunes, do Santa Cruz, completou o placar.
O técnico Cláudio Coutinho destacou o entrosamento entre Rivellino, Dirceu e Edinho, além da eficiência de Zico na partida. O público presente, em sua maioria torcedores do Flamengo, vibrou com o desempenho do Galinho, que respondeu com simplicidade à empolgação da torcida: “Torcedor é assim mesmo, enlouquece com os gols. Na verdade, também vibro quando consigo marcar. Mas num time como a seleção brasileira é fácil, ainda mais tendo Rivellino na armação.”
A torcida do Fluminense também celebrou o nome de Rivellino após o sétimo gol do Brasil. O capitão e principal articulador da equipe resumiu a filosofia do time: “Muitas vezes sei que posso tentar o gol, mas vejo um companheiro em melhores condições e passo a bola.” A sintonia entre os jogadores e o coletivo foram marcas dessa equipe que buscava a coesão dentro e fora de campo.
O legado do Caio Martins e sua transformação
Após esse período de destaque, o Estádio Caio Martins perdeu espaço no cenário nacional. O local, que chegou a ser utilizado como prisão durante a ditadura militar, teve seu último momento de visibilidade quando o Botafogo mandou partidas no estádio durante uma fase competitiva até o título brasileiro de 1995. Segundo o historiador Rainha, o projeto de transformar Niterói em um polo relevante do futebol foi gradualmente abandonado, especialmente pela proximidade da cidade com os grandes clubes do Rio e a fase difícil do Botafogo.
Recentemente, o Complexo Esportivo Caio Martins foi retirado da lista de imóveis que poderiam ser vendidos pelo governo do estado do Rio de Janeiro. Avançou o projeto que prevê uma transformação radical da área: o estádio dará lugar a um parque esportivo integrado a um sistema de drenagem para combater enchentes na Zona Sul de Niterói.
A medida foi aprovada pela Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Assembleia Legislativa do Rio (Alerj) e prevê a construção de um reservatório subterrâneo de águas pluviais, conhecido como piscinão, para minimizar alagamentos recorrentes. O investimento estimado pelo município é de aproximadamente R$ 350 milhões e inclui a implantação de cerca de seis quilômetros de redes de escoamento e melhorias nas ruas do entorno.
Na superfície, o projeto prevê um parque multiesportivo aberto ao público, com modernização das piscinas e quadras existentes, além da criação de novos equipamentos para esporte e lazer. Essa transformação marca uma nova fase para o local que já foi cenário de grandes momentos do futebol brasileiro e que agora se reinventa para atender às necessidades da cidade.

