Um Grande Show que Gera Impacto Econômico
No último sábado, dia 2, o projeto Todo Mundo no Rio deu início ao seu terceiro ano com um espetáculo estonteante de Shakira. Essa iniciativa, promovida pela Prefeitura do Rio de Janeiro, oferece shows gratuitos de artistas renomados nas areias de Copacabana desde 2024, quando Madonna fez sua estreia nesse formato inovador. A proposta não só se firmou como um evento marcante no calendário cultural da cidade, mas também se tornou um pilar para a movimentação econômica local.
A expectativa do governo é que a realização deste show, com um investimento público de R$ 20 milhões, possa gerar uma impressionante injeção de R$ 800 milhões na economia carioca. Esses números estão alinhados com os resultados de edições anteriores, como o show de Lady Gaga, que, em maio de 2025, trouxe mais de R$ 600 milhões para a economia e atraiu cerca de 500 mil turistas à cidade, superando a expectativa inicial de 240 mil visitantes.
Juntas, as apresentações de Madonna e Lady Gaga resultaram em cerca de US$ 500 milhões em mídia espontânea internacional. Para o show de Shakira, projeta-se que a exposição global alcance mais US$ 250 milhões adicionais, reforçando a importância desse tipo de evento para a imagem da cidade.
O Impacto dos Megaeventos na Economia Carioca
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Em termos fiscais, maio de 2025 foi um mês significativo para o Rio, que arrecadou R$ 66,8 milhões em impostos relacionados a serviços de turismo, eventos, transporte e artistas, representando um crescimento real de 23,2% em comparação com o último mês de maio antes da pandemia, quando não houve show na praia.
O prefeito Eduardo Cavaliere anunciou na quarta-feira, dia 29, a continuidade do projeto Todo Mundo no Rio até 2028. Lucas Padilha, secretário de Cultura, destacou que a permanência desse modelo distingue a iniciativa de um evento isolado, afirmando: “O Todo Mundo No Rio se tornou algo que não é apenas o show da Lady Gaga ou da Madonna — é um fenômeno cultural em si mesmo”. Ele mencionou que a movimentação econômica proporcionada pelo evento justifica o investimento da prefeitura.
A Relevância do Setor Cultural para o Turismo
Os dados reforçam a crescente relevância do setor cultural no turismo da cidade. Em 2025, o Rio recebeu 12,5 milhões de turistas, um aumento de 10,5% em relação ao ano anterior, resultando em um impacto econômico estimado de R$ 27,5 bilhões, conforme informações da prefeitura. Além do Todo Mundo no Rio, o tradicional Carnaval também se destaca, movimentando R$ 5,9 bilhões em 2026, o que representa 41,5% do total de serviços movimentados na cidade no período.
Marcel Grilo Balassiano, subsecretário de Desenvolvimento Econômico, ressaltou: “Sabemos como fazer festas, mas também entendemos como transformar isso em negócios”. Um exemplo disso é o WebSummit, um dos maiores eventos de tecnologia do mundo, que pela primeira vez foi realizado fora da Europa no Rio, com a renovação do contrato até 2030, evidenciando que a estratégia para grandes eventos vai além do entretenimento.
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A empresária Isis Grossi, atuando no setor de turismo no Rio há mais de 14 anos, acredita que o crescimento atual não é um fenômeno temporário: “Após a pandemia, as pessoas reavaliaram suas prioridades”. Ela observa que a combinação de shows internacionais, expansão da cena gastronômica e um mercado imobiliário aquecido impulsiona esse movimento.
Desafios e Oportunidades para o Futuro da Cultura no Rio
Leonardo Morel, pesquisador do Laboratório de Economia Criativa da ESPM-RJ, vê a atual situação como um reflexo tanto da história da cidade quanto de um contexto econômico favorável. No entanto, ele alerta sobre a importância da continuidade nas políticas culturais: “Precisamos de políticas de Estado que sejam constantes, independentemente da mudança de governo”.
Enquanto o projeto Todo Mundo no Rio brilha nos holofotes, a Secretaria Municipal de Cultura também está desenvolvendo uma política de fomento descrita como a mais abrangente da história do município, incluindo um edital que prevê mais de R$ 38 milhões para a cultura hip-hop e o slam, reconhecendo sua relevância.
Além disso, a prefeitura lançou o Edital do Produtor Cultural 03/2026, com um total de R$ 91,8 milhões destinados a projetos culturais, e outro edital especificamente voltado para o fortalecimento institucional de espaços e grupos culturais, alocando R$ 14 milhões para esta finalidade.
Apesar dos avanços, Morel destaca a necessidade de capacitação sistemática no setor, afirmando que muitos profissionais aprendem na prática, mas carecem de formação consistente. Outro aspecto importante a considerar é a segurança pública, que pode ser um obstáculo para jovens aspirantes a trabalhar na cultura, especialmente em áreas mais vulneráveis.
Um Legado Cultural e a Necessidade de Sustentabilidade
A meta da secretaria é criar uma rede de 100 instituições culturais até 2028, um legado que Padilha considera fundamental para a política cultural da gestão. Além disso, iniciativas voltadas à preservação da memória e acervos têm sido implementadas, como o edital para digitalização de documentos históricos, refletindo a necessidade de cuidar da rica história cultural da cidade.
Apesar das incertezas, como o fim do ISS previsto para 2030, que poderá impactar os recursos destinados à cultura, a Política Nacional Aldir Blanc poderá auxiliar, embora exija um modelo diferente de financiamento com menor participação do setor privado. Morel sugere que o Brasil tem potencial para exportar sua cultura de forma mais eficaz, mas para isso, seria necessário implementar políticas culturais permanentes que transcendam ciclos eleitorais.

