A construção como patrimônio histórico
O antigo prédio do Dops, localizado no coração do Rio de Janeiro, acaba de ser homologado como patrimônio histórico pelo Ministério da Cultura. Projetado pelo arquiteto Heitor de Mello, essa edificação foi inaugurada em 1910 e serviu como sede da repartição central de polícia, carregando consigo memórias de um dos períodos mais sombrios da história brasileira.
Entre 1962 e 1975, o local abrigou o Dops, um cenário que simbolizou a repressão, com prisões arbitrárias e severas violações dos direitos humanos durante a ditadura militar. O presidente do Iphan, Leandro Grass, ressaltou a importância desse tombamento. “Este ato homenageia aqueles que foram torturados, perseguidos, mortos ou desaparecidos por lutarem pela liberdade. Ao torná-lo patrimônio, contribuímos para que as gerações presentes e futuras não repitam os erros desse período”, afirmou.
Um espaço de memória e cultura
Além de seu passado conturbado, o edifício também abrigou o Acervo Nosso Sagrado, que é uma coleção de objetos representativos de religiões de matriz africana. Este acervo, tombado pelo Iphan, foi resultado de ações policiais que confiscavam itens de terreiros de candomblé e umbanda entre os anos de 1890 e 1946.
Após o seu uso pelo Dops, o prédio foi cedido à União e, posteriormente, ao governo do estado do Rio, sendo dedicado a atividades policiais. No entanto, a construção se encontra abandonada há 15 anos, sem uso e em estado de deterioração.
Arquitetura marcante da Belle Époque
Com três andares e um pátio interno, a arquitetura do edifício é um exemplo notável do eclético estilo da Belle Époque, com influência francesa. Suas fachadas simétricas e detalhes ornamentais, como vitrais, balaustradas e uma cúpula na esquina, fazem dele um dos principais marcos da modernização urbana do Rio no início do século XX.
Com o tombamento oficial, o Iphan assume a responsabilidade de proteger a integridade histórica e cultural do imóvel, garantindo a preservação de suas características originais e impedindo que seja destruído ou modificado sem a devida autorização.
Demandas por um centro de memória
O Ministério Público Federal (MPF) e o Movimento Tortura Nunca Mais expressaram o desejo de que o prédio seja transformado em um centro de memória e direitos humanos. A Secretaria de Patrimônio da União esteve presente na vistoria realizada pelo Ministério da Cultura, a fim de avaliar qual modelo seria adequado para o uso do espaço.
O processo para definir a destinação do imóvel será conduzido pelo ministério, com a colaboração dos diversos órgãos federais envolvidos na questão.
Desocupação e manutenção
A Secretaria de Estado de Polícia Civil informou que está colaborando com a preservação do acervo no local. O prédio tinha sido desocupado em 2011 devido ao risco de desabamento, causado por danos estruturais advindos de obras em um imóvel vizinho.
Agora, com o tombamento, espera-se que o antigo prédio do Dops possa ser revitalizado e se torne um espaço de memória, contribuindo para a reflexão sobre a história e a luta pelos direitos humanos no Brasil.

