Trump e a Influência na Política Externa Brasileira
Historicamente, o deputado Ulysses Guimarães (1916-1992) costumava brincar que “a política externa só dá voto no Burundi”. Porém, o advento de Donald Trump mudou essa dinâmica. Com a ascensão do ex-presidente americano, eventos internacionais passaram a reverberar diretamente na política interna do Brasil. Em um início de 2026 turbulento, onde os EUA protagonizaram ações dramáticas como a prisão de um líder inimigo e a eliminação de outro, Trump se tornou uma variável crucial em decisões que vão desde as taxas de exportação até as diretrizes da Justiça eleitoral sobre redes sociais. Além disso, questões como a exploração de reservas de terras raras e a moeda utilizada nas transações com a Índia estão no tabuleiro de negociação, tornando o cenário ainda mais complexo.
Nos últimos sete meses, a relação entre Trump e o Brasil tornou-se um campo de vontades contraditórias, onde o ex-presidente se transformou de um crítico das ações de Eduardo Bolsonaro em um inesperado aliado de Luiz Inácio Lula da Silva. Este encontro entre os dois líderes, programado para ocorrer em Washington nas próximas semanas, promete ser um marco nas relações bilaterais, além de oferecer um indicativo sobre as taxas de produtos brasileiros e a possibilidade de investimentos americanos em setores estratégicos no Brasil.
Entretanto, prever a posição de Trump sobre Lula ou o Brasil em um futuro próximo é um exercício de pura especulação. O recente ataque dos EUA ao Irã exemplifica a natureza imprevisível de sua administração, onde até mesmo avanços nas negociações sobre o programa nuclear iraniano foram rapidamente eclipsados por suas próprias exigências. Nos últimos meses, a União Europeia também se viu à mercê da pressão comercial americana, o que demonstra que, sob a liderança de Trump, a política externa dos EUA raramente é estável.
A abordagem firme de Lula em resposta às tarifas impostas por Trump sinaliza um momento decisivo em seu terceiro mandato. A forma como o presidente brasileiro tem lidado com essa pressão externa reflete sua consciência da posição do Brasil no contexto global, contrastando significativamente com a postura subserviente da família Bolsonaro, que parecia celebrar os danos econômicos aos exportadores nacionais. As pesquisas de opinião indicam que essa postura de Lula tem encontrado ressonância no eleitorado.
Contudo, mesmo com a aparente aproximação entre Lula e Trump, os desdobramentos no Departamento de Estado dos EUA ainda favorecem indiretamente a candidatura de Flávio Bolsonaro. A hesitação em oferecer um apoio formal a Flávio se deve a temores de um possível efeito negativo entre os eleitores brasileiros, o que mostra que lições do passado ainda estão frescas na memória dos políticos americanos. A possibilidade de que os EUA classifiquem facções como PCC e CV como organizações terroristas antes das eleições é uma estratégia que poderia fortalecer a retórica de segurança da direita sem um apoio explícito.
O Termômetro da Traição na Política Brasileira
A contagem regressiva para as eleições de 2026 já começou, e as pesquisas sobre a opinião pública se intensificarão nas próximas semanas. A janela partidária, que se abrirá a partir da próxima sexta-feira (6) e se estenderá até 5 de abril, permitirá que deputados federais, estaduais e distritais mudem de partido sem perder o mandato. Essa movimentação é, sem dúvida, um reflexo do que os políticos acreditam sobre o clima eleitoral.
Para os deputados, a escolha do partido certo pode ser a diferença entre a reeleição e o desprezo do eleitorado. A dificuldade em se reeleger no Brasil é uma realidade: a média de reeleição na Câmara é de apenas 56%, um dos índices mais baixos do mundo. A janela partidária de 2022 foi um exemplo claro disso, onde cerca de 120 deputados mudaram de legenda visando uma vitória mais promissora. O PL de Jair Bolsonaro, por exemplo, viu uma onda de adesões, mas a recente prisão do ex-presidente fez com que o cenário mudasse drasticamente. Isso demonstra a fragilidade das alianças políticas em tempos de crise.
A configuração que se desenhará na janela partidária pode servir como um termômetro sobre a força de cada candidato nas próximas eleições, e o crescimento do PL pode sinalizar uma expectativa de vitória para Flávio Bolsonaro. Em contrapartida, uma maioria de deputados optando por partidos menos comprometidos com a polarização eleitoral pode indicar uma corrida apertada entre os candidatos. Os recursos financeiros públicos que sustentam as campanhas dependem das cadeiras conquistadas, o que leva a um ciclo vicioso que favorece partidos com um maior número de deputados, reduzindo a diversidade de opções políticas disponíveis.
Os Intocáveis do STF e a Questão da Transparência
A recente decisão do ministro do STF Gilmar Mendes, que anulou a quebra de sigilos da Maridt, levanta questões sobre a transparência e a imparcialidade da Corte. Essa decisão não apenas protege os interesses de ministros, mas também ecoa um clima de impunidade que envolve a mais alta instância do Judiciário. A aprovação da quebra de sigilos pela CPI do Crime Organizado representava um avanço importante para a accountability, mas a proteção concedida a Toffoli e seus familiares reverteu essa expectativa.
A marcação de uma audiência pública para investigar a vida empresarial de um ministro do STF era um passo inédito em direção à fiscalização, mas a decisão de Gilmar Mendes reverteu essa possibilidade, reforçando a percepção de que os membros da Corte estão acima do bem e do mal. Essa situação evidencia a necessidade de maior rigor na atuação dos ministros e uma reavaliação dos limites do poder do Judiciário.

