Redescobrindo a Leopoldina
Comumente associada a pontos turísticos famosos como o Cristo Redentor e as praias da Zona Sul, a cidade do Rio de Janeiro passa por uma transformação no seu mapa turístico. Na Zona da Leopoldina, localizada na Zona Norte, o turismo ganha novos contornos por meio de uma iniciativa inovadora do turismólogo Gabriel Capella, que busca ressignificar a relação dos cariocas com sua própria cultura. Capella, que cresceu nas comunidades de Ramos e Vila da Penha, aliou sua formação acadêmica ao seu amor pela região, criando roteiros que exploram a rica história e cultura popular dos subúrbios cariocas.
“Este trabalho está profundamente ligado à minha história e ao meu pertencimento. Ao me conectar com a Imperatriz e o Cacique de Ramos, percebi a riqueza cultural e histórica que esses lugares guardam. Isso me deu a chance de unir minha formação profissional com meu afeto pela Leopoldina”, compartilha Gabriel.
Roteiros que Contam Histórias
Atualmente residindo em Santa Teresa, Gabriel desenvolveu três roteiros autorais que se destacam: Relíquias da Penha, Leopoldina Musical – do Choro ao Carnaval, e Geografia Gresilense. Cada um deles traz à tona elementos que compõem a identidade cultural da região.
O roteiro Relíquias da Penha leva os participantes a locais icônicos como a Igreja da Penha, o Parque Shanghai e o Monumento Homens de Fibra. Essa experiência proporciona um imersão na memória da região, abordando a importância histórica da Festa da Penha, que, segundo Capella, foi crucial para a formação cultural do Rio. “A festa deu destaque à Penha em um período em que o subúrbio ainda era predominantemente rural. Foi um marco para a cultura carioca e brasileira”, revela.
Já o Leopoldina Musical serve como uma celebração das tradições do choro e do carnaval, enfatizando as contribuições de agremiações como Cacique de Ramos e Imperatriz Leopoldinense. Por outro lado, o roteiro Geografia Gresilense é uma verdadeira aula ao ar livre sobre a história da Imperatriz, com um cavaquinista tocando sambas-enredo ao vivo durante a caminhada pelas ruas históricas de Ramos.
A Importância do Pertencimento
De acordo com Gabriel, enxergar a Zona Norte como um polo turístico é uma questão de justiça histórica. “A imagem do carioca vendida para o mundo não pode desconsiderar as contribuições do subúrbio. O turismo, se feito de forma consciente, pode impulsionar a economia local e fortalecer o pertencimento da comunidade”, argumenta.
Hoje, o público que participa das experiências é predominantemente formado por moradores do Rio, especialmente do eixo Centro-Zona Sul, mas também há visitantes internacionais de países como Argentina, França e Escócia. “É fundamental promover momentos de interação com a comunidade local. Isso faz toda a diferença, especialmente para aqueles que vêm de fora”, destaca Gabriel.
Experiências que Transformam
Os participantes dos tours relatam impactos significativos em suas percepções. O jornalista Gabriel Vasconcelos, que cresceu em Ramos, decidiu conhecer os roteiros após se deparar com a iniciativa nas redes sociais. “Embora já conhecesse a região, nunca havia a explorado sob essa perspectiva turística. O que mais me surpreendeu foi a organização das informações, incluindo um recurso inovador que utiliza monóculos com fotos antigas dos locais visitados. Olhar através do monóculo e ver o mesmo lugar décadas atrás foi um impacto forte”, conta.
Ele também aponta como o tour ajudou a desconstruir estigmas sobre o subúrbio. “Estamos tão acostumados a ouvir histórias do Centro e da Zona Sul que parece que o subúrbio surgiu de forma caótica, sem dignidade para ter sua história contada. Ver alguém se dedicar a mostrar a trajetória desse espaço, que é tão próximo de nós, é gratificante”, comenta Vasconcelos.
Entre os momentos mais emocionantes, destaca a Rua Nossa Senhora das Graças, onde fotos antigas revelavam blocos que originaram a Imperatriz desfilando naquele mesmo local. “Foi realmente tocante”, lembra.
Um Convite à Descoberta
Gabriel Capella convida aqueles que ainda não conhecem a Leopoldina a explorá-la: “É uma das partes mais encantadoras de um livro que não deve ser lido apenas pela capa. Se você quer conhecer o Rio de maneira autêntica, venha visitar a Zona da Leopoldina”. Em tempos de discussões sobre pertencimento e valorização dos territórios periféricos, iniciativas como essa mostram que o turismo pode ser mais do que apenas um consumo de paisagens; ele pode ser uma ferramenta de memória, autoestima e reconhecimento, começando bem perto de casa.

