Projeto de Turismo Comunitário na Floresta da Tijuca
No alto do Rio de Janeiro, onde a exuberante Floresta da Tijuca se entrelaça com a vida urbana, os moradores do Alto da Boa Vista estão promovendo uma revolução no turismo local. Em um espaço que combina natureza, afetividade e conhecimento, nasceu, em 2022, o Agrega Alto, um projeto que visa estabelecer um turismo de base comunitária. Voltado para estudantes e visitantes, a iniciativa propõe vivências pedagógicas e ecológicas, permitindo que todos conheçam melhor a rica biodiversidade que a floresta oferece.
Este mês, o projeto alcançou um novo marco ao participar de um curso de capacitação sobre práticas de mínimo impacto ambiental. Os integrantes do Agrega Alto estão agora mais bem preparados para conduzir experiências em áreas naturais e transmitir esse conhecimento por meio de cursos, palestras e outras atividades para novos visitantes.
Um Legado Familiar e Comunitário
A história que fundamenta o Agrega Alto remonta à década de 1940, quando o avô de Dirlei Silva, um dos fundadores, cultivava a terra para sustentar sua família. Embora o negócio tenha enfrentado dificuldades na década de 1980, o amor pela terra e o desejo de criar um novo ciclo de pertencimento e geração de renda revigoraram a paixão pela agricultura. Durante a pandemia, Silva e sua família decidiram retornar às raízes, reavaliando o potencial do espaço que sempre fez parte de sua história.
Ao participar de uma capacitação em Turismo de Base Comunitária, Silva ganhou as ferramentas necessárias para transformar a visão do Agrega Alto em realidade. Desde então, a equipe vem elaborando roteiros que incluem trilhas interpretativas, educação ambiental, práticas de agricultura familiar e gastronomia afetiva elaborada com ingredientes locais.
Crescimento e Diversidade de Visitantes
Nos últimos três anos, aproximadamente 2.300 pessoas já visitaram o Agrega Alto, incluindo alunos de escolas públicas e particulares, universitários, turistas e moradores. O fundador ressalta que, em média, o projeto recebe pelo menos uma escola por mês, e em períodos determinados, esse número pode chegar a cinco. Essa diversidade é uma das chaves para aproximar o público da natureza, utilizando as narrativas dos moradores locais como ferramenta de conexão.
“Nada quebra mais estereótipos do que o visitante ouvir diretamente as histórias de quem vive no lugar. O nosso papel sempre será capacitar, incentivar e dar voz ao morador local”, destaca Silva, ressaltando a importância do engajamento comunitário.
Capacitação para Uma Experiência Consciente
Recentemente, uma nova capacitação foi realizada, com 16 horas de duração, focando nos princípios do método Leave No Trace (Não Deixe Rastro). Este curso, ministrado pelo Gear Tips, é uma referência em práticas sustentáveis e de mínimo impacto em ambientes naturais. Ao final do treinamento, todos os participantes foram certificados, prontos para compartilhar esse conhecimento com visitantes.
O curso ofereceu não apenas teoria, mas também atividades práticas, onde os alunos assumiram o papel de instrutores, o que os preparou para repassar as informações adquiridas. Entre os tópicos abordados estavam o planejamento de atividades ao ar livre, o descarte correto de resíduos e a preservação dos elementos naturais.
A Importância da Sensibilização Ambiental
Pedro Lacaz Amaral, fundador do Gear Tips, enfatiza que a formação técnica é vital em um contexto de crescente turismo em áreas naturais. Para ele, a conservação deve ser uma parte intrínseca da vivência do visitante. “Quem visita áreas ao ar livre precisa entender quais impactos causa e como evitá-los”, afirma. O curso já foi realizado em diversas regiões do Brasil, sempre com foco em preparar educadores para orientar os visitantes de maneira consciente.
No Agrega Alto, essa capacitação trouxe uma mudança significativa: os moradores passaram de meros participantes a protagonistas e multiplicadores do conhecimento. Silva compartilha que, mesmo conhecendo a floresta, é essencial desenvolver um senso de pertencimento para a preservação. “Mais do que conhecer a natureza, as pessoas precisam entender como ocupar esse espaço com responsabilidade”, explica.
Construindo Memórias e Conexões
O projeto busca criar experiências memoráveis, especialmente para as crianças. Silva acredita que, ao proporcionar atividades práticas, os jovens não apenas aprendem, mas também formam memórias que os acompanharão por toda a vida. “Um de nossos principais objetivos é sensibilizar as crianças para que se tornem adultos conscientes”, destaca.
Ao longo do tempo, o Agrega Alto tem acumulado histórias emocionantes, como a de uma professora indígena que redescobriu ervas e árvores que não via desde sua infância no Pará, conectando-se com suas raízes no ambiente carioca. Essa relação entre natureza e identidade é um dos pilares do projeto.
Um Olhar para o Futuro
Silva ressalta que o Agrega Alto não se limita a oferecer passeios, mas propõe uma nova leitura da paisagem e da memória compartilhada. Ao valorizar os moradores como anfitriões e educadores, a iniciativa promove um modelo que integra preservação, autonomia e valorização do território. Para ele, a ideia de que o legado familiar perdura através do trabalho no Agrega Alto é profundamente significativa. “Cada plantio e cada gota de suor valeram a pena. Meu legado está sendo transmitido para além da minha família, contribuindo com futuras gerações”, finaliza emocionado.

