Estudo Revela Impactos da Violência Armada na Educação
Cerca de 190 mil estudantes da rede pública municipal do Rio de Janeiro enfrentam sérios desafios em seus trajetos diários para a escola, devido a interrupções no transporte público ocasionadas pela violência armada na cidade. Esses dados alarmantes foram divulgados no estudo intitulado “Percursos Interrompidos: Efeitos da Violência Armada na Mobilidade de Crianças e Adolescentes no Rio de Janeiro”, apresentado na última quinta-feira (26) pelo Unicef, em parceria com o Instituto Fogo Cruzado e o Geni/UFF.
Ao total, 188.694 crianças e adolescentes tiveram suas rotas comprometidas por ocorrências relacionadas à violência entre janeiro de 2023 e julho de 2025. O levantamento documentou 2.228 interrupções no sistema de transporte da cidade, revelando que essas ocorrências não são uniformes, mas sim concentradas em áreas específicas, acentuando a desigualdade na mobilidade urbana.
A Violência e Seu Impacto na Educação
A pesquisa investigou de que maneira a violência armada interfere na locomoção urbana e compromete o acesso de crianças e adolescentes a direitos fundamentais, como o da educação. Através da combinação de dados sobre interrupções no transporte público e registros de violência armada, incluindo ônibus, trens e metrô, o estudo demonstra que o deslocamento diário tornou-se imprevisível em várias partes da cidade.
A chefe do Unicef no Rio de Janeiro, Flávia Antunes, destacou que a mobilidade segura é um direito essencial para que crianças e adolescentes tenham acesso à educação e a serviços de saúde. “Nenhuma criança deveria deixar de ir à escola por não conseguir se locomover com segurança. Este estudo revela que, em alguns territórios, a violência armada transforma a ida à escola em um risco contínuo, aprofundando as desigualdades e comprometendo direitos básicos”, afirmou.
Dados Alarmantes sobre Interrupções no Transporte
Do total de interrupções registradas, 786 ocorreram em 2023, 852 em 2024 e 590 até julho de 2025. Esse padrão recorrente demonstra uma instabilidade preocupante na mobilidade urbana. As consequências para a rede municipal de ensino são abrangentes: cerca de 95% das 4.008 escolas ativas em 2024 registraram, pelo menos, uma interrupção no transporte público em seu entorno ao longo do período analisado.
Maria Isabel Couto, do Instituto Fogo Cruzado, ressaltou a importância de usar esses dados para planejar políticas públicas que garantam o direito à educação e a prevenção da violência. “O tempo das interrupções é suficientemente longo para inviabilizar um dia inteiro de aula, com uma média de sete horas por evento, e em dias escolares o impacto é ainda maior”, destacou.
Dinâmicas de Violência e Desigualdade Territorial
A maioria das interrupções está ligada a diversas dinâmicas de violência armada, sendo as principais causas listadas: barricadas (32,4%), operações policiais (22,7%), manifestações (12,9%), ações criminosas (9,6%) e tiros ou tiroteios (7,2%). A coordenadora do Geni/UFF, Carolina Grillo, enfatiza que a imprevisibilidade do deslocamento se tornou a norma em determinadas áreas, criando barreiras silenciosas que dificultam o acesso à escola e ampliam desigualdades preexistentes.
A análise ainda demonstra que as interrupções têm um caráter desigual, afetando de maneira desproporcional determinadas regiões da cidade. Os bairros da Penha e Bangu, na zona Norte, e Jacarepaguá, na zona Oeste, são os mais afetados, acumulando um total de 969 eventos de mobilidade interrompida.
Classificação de Risco das Escolas
O estudo classificou as escolas em diferentes níveis de risco com base na frequência e intensidade das interrupções. Apesar de 72,5% das matrículas estarem em instituições de menor risco, 25,8% estão em escolas com risco moderado, alto ou muito alto. A maior concentração de risco se dá em apenas 120 unidades, representando 2,9% do total, evidenciando a gravidade da situação em áreas já vulneráveis.
Recomendações para Melhorar a Situação
Em resposta a esses desafios, o estudo sugere várias ações imediatas, como a integração do monitoramento de incidentes, a criação de planos de continuidade da mobilidade, o fortalecimento da governança intersetorial e a priorização de políticas de prevenção territorial. Além disso, é crucial garantir suporte psicossocial para as crianças e famílias afetadas pela violência.
A Secretaria Municipal de Educação do Rio de Janeiro anunciou que, em 2025, 590 escolas foram fechadas devido a operações policiais ou confrontos. Para mitigar os impactos pedagógicos, a secretaria propõe diversas estratégias, incluindo reforço escolar e suporte pedagógico, além de um programa em parceria com a Cruz Vermelha para garantir a segurança e continuidade da educação em áreas afetadas pela violência.
Posicionamento do Governo do Rio de Janeiro
O governo estadual também se manifestou, esclarecendo que não se pronuncia sobre os dados do relatório devido à falta de clareza na metodologia utilizada. No entanto, enfatizou que a Operação Barricada Zero, iniciada em novembro de 2025, já removeu milhares de barreiras, permitindo um acesso mais seguro às comunidades.

