Um Chamado à Reflexão sobre Educação e Violência
Na última semana de março de 2026, o Brasil se deparou com episódios alarmantes de agressões policiais a estudantes nas capitais São Paulo e Rio de Janeiro. No dia 26, um grupo de jovens ocupou a Secretaria da Educação em São Paulo, exigindo melhores condições de ensino. Essa manifestação foi o culminar de diversas tentativas frustradas de diálogo com o Secretário de Estado.
Entre as demandas dos estudantes, destacavam-se a revogação do corte de R$11 bilhões na educação, melhorias na infraestrutura das escolas e a proposta de um projeto tecnológico que realmente considerasse as necessidades da juventude. No entanto, em vez de uma resposta construtiva do governo, a reação foi a brutalidade policial, com o uso de spray de pimenta e cassetetes, resultando na detenção de 22 estudantes. Embora já tenham sido liberados, eles enfrentam acusações de organização criminosa e depredação do patrimônio público.
Assim, no dia 25 de março, a situação se repetiu no Rio de Janeiro, onde um policial militar agrediu três estudantes que participavam de uma manifestação dentro de uma escola estadual. Os jovens, membros de entidades estudantis, estavam lá a pedido dos próprios alunos, que buscavam melhorias nas condições de ensino e a apuração de uma denúncia de assédio cometido por um professor. Infelizmente, a escola, ao invés de promover um diálogo, optou por chamar a polícia, que respondeu com violência.
As Lutas dos Estudantes e seus Ecos Históricos
Essas agressões ocorrem em um contexto simbólico, perto do Dia 28 de março, data que marca o assassinato de Edson Luiz Lima Souto, um jovem morto pela Polícia Militar no restaurante estudantil Calabouço, no centro do Rio de Janeiro. O crime chocou a nação e expôs a brutalidade dos primeiros anos da ditadura empresarial militar. Esse evento culminou na Passeata dos Cem Mil, um marco na luta contra a repressão.
Além disso, as violências recentes coincidem com as vésperas do 62º aniversário do golpe militar de 1964, que instaurou uma ditadura que perdurou por mais de duas décadas. Tais contextos não podem ser ignorados, pois revelam um padrão de repressão em relação ao movimento estudantil e a projetos de educação que buscam emancipar e organizar os jovens.
O Papel da Educação na Sociedade
As cenas de violência nos mostram que a resposta do Estado não é um ato isolado, mas parte de um projeto educacional que se opõe à construção de uma educação emancipadora. Quando as escolas chamam a polícia para lidar com manifestações pacíficas, elas se distanciam de sua função primordial de educar. A violência policial, em vez de diálogo, revela um posicionamento político que prioriza a repressão sobre a educação.
Em homenagem a Edson Luiz, o cantor Milton Nascimento produziu a canção “Menino”, que destaca a importância de não permanecer em silêncio diante da violência. O silêncio e a inação são formas de conivência com a opressão. É preciso, portanto, se posicionar em prol da liberdade e da educação em Direitos Humanos.
As Lutas como Formadoras de Consciência
Em tempos de privatização das escolas e militarização dos espaços educacionais, as lutas dos estudantes nos educam e nos mostram que a resistência é fundamental. A história revela que aqueles que ousaram desafiar as trevas da opressão foram essenciais para a conquista da liberdade.
A canção “Coração de Estudante”, também de Milton Nascimento, se tornou um hino das lutas populares, lembrando que mesmo diante das adversidades, a esperança deve ser renovada. A cada nova aurora, é vital cuidar das sementes da transformação para que possam florescer no futuro.
José Heleno Ferreira é doutor em Educação pela PUC Minas e membro da Rede Brasileira de Educação em Direitos Humanos – Coord. Minas Gerais. Contato: [email protected]

