Uma Noite de Samba e Memória
Na casa onde Zé Renato cresceu, o samba sempre foi uma constante, com influência direta de seu pai, Simão de Montalverne, que organizava serestas memoráveis na boemia carioca. Este cenário afetivo moldou o repertório do show “Samba e Amor”, parte do projeto “Terças no Ipanema”, que acontece no Teatro Ipanema, no Rio de Janeiro, durante as terças de março. Na segunda apresentação, realizada na noite de 10 de março, Zé Renato trouxe à tona sua paixão pelo gênero, reverenciando os grandes nomes do samba ao lado do convidado especial Paulinho Moska.
O duo iniciou a apresentação com a única composição feita em parceria, “Cama da Ilusão” (2000), um samba que ecoa as memórias da velha guarda. O momento foi celebrado em um canto vibrante da canção “Dupla Genial” (1990), também uma homenagem aos saudosos Alcebíades Barcelos e Armando Marçal, que, nos anos 30, ajudaram a consolidar a identidade do samba carioca.
Momentos de Homenagens e Emoções
Antes de encerrar a apresentação, a dupla entoou “Desde que o samba é samba” (Caetano Veloso, 1993), após um bis que incluiu a animada “Cabô” (Zé Renato e Pedro Luís, 2000). Apesar de um pequeno deslize na letra de “Cama da Ilusão”, a energia de Moska e a leveza de sua participação trouxeram um tom especial ao show. Zé Renato também se apresentou ao lado do violonista Carlinhos Sete Cordas e do percussionista Paulino Dias, navegando por diversas nuances do samba, incluindo a música inédita “A Santa do Engenho Novo” (Zé Renato e Leonardo Lichote, 2026).
A canção foi estrategicamente apresentada antes de revisitar o clássico “365 Igrejas” (Dorival Caymmi, 1946), que há 80 anos faz parte da história do samba. Com uma trajetória que se estende por mais de cinco décadas, Zé Renato, conhecido como um dos maiores intérpretes brasileiros, encantou o público com sua versatilidade, sempre em harmoniosa conexão com a tradição, ao mesmo tempo em que avança na sua carreira solo.
A Arte de Interpretar o Samba
No repertório do show “Samba e Amor”, o artista fez uma bela interpretação de “Duas Horas da Manhã” (Nelson Cavaquinho e Ari Monteiro, 1972), trazendo à tona a melancolia tão característica da obra de Cavaquinho, enriquecida pelo toque da cuíca de Paulino Dias. Outro ponto alto da apresentação foi a interpretação do afrossamba “Consolação” (Baden Powell e Vinicius de Moraes, 1963), que se destacou pela potente ancestralidade e a maestria nos arranjos dos violões.
Muito à vontade, Zé Renato mostrou-se como um verdadeiro bamba ao homenagear Zé Ketti (1921 – 1999), incluído no setlist com suas canções icônicas como “A Voz do Morro” (1955) e “Malvadeza Durão” (1959). Para enriquecer ainda mais a experiência, o show trouxe duas obras-primas de Noel Rosa em parceria com Vadico: “Feitio de Oração” (1933) e “Feitiço da Vila” (1934), que encantaram os presentes e mostraram a profundidade e a riqueza da música brasileira.
O evento, idealizado com a curadoria de Flávia Souza Lima, provou-se um acerto ao proporcionar ao público uma noite imersiva no universo do samba. Com Zé Renato à frente, o amor pelo samba não é apenas uma paixão pessoal, mas também um legado familiar, uma verdadeira ode à tradição e à cultura carioca que perdura ao longo dos anos.

