Desconstruindo Narrativas Misóginas
“Regret nothing”: essa frase impactante estampava a camiseta de um jovem envolvido em um caso chocante de estupro coletivo de uma adolescente de 17 anos em Copacabana, Rio de Janeiro, na semana passada. Tal expressão não é apenas uma frase infeliz; ela reflete um mantra promovido por Andrew Tate, uma das figuras mais proeminentes do discurso masculinista na internet.
A série “Adolescência”, da Netflix, que estreou há um ano, trouxe à tona a discussão sobre a misoginia nas plataformas digitais, despertando a atenção do público para temas como “machosfera”, “incel” e “red pill”. Essa produção britânica, reconhecida e premiada, expôs um universo virtual de ódio que antes passava despercebido por muitos pais e responsáveis.
É inegável que a violência contra mulheres não surgiu com as redes sociais, mas as plataformas digitais ampliaram as formas de vitimização. Hoje, é alarmante o acesso facilitado a conteúdos que propagam narrativas sexistas. O que se observa nas notícias é um reflexo de uma sociedade profundamente desigual em questões de gênero, alimentada por influenciadores que lucram com a ideia de que as mulheres são inferiores. Apesar de diversas iniciativas, temos falhado em combater efetivamente essas formas de violência.
Estatísticas Alarmantes
O NetLab, laboratório de estudos sobre a internet da UFRJ, divulgou dados preocupantes: 90% dos canais misóginos identificados no YouTube estão ativos e, juntos, somam mais de 23 milhões de inscritos, um aumento de quase 20% em relação a dois anos atrás. Isso significa que milhões de homens são expostos diariamente a vídeos que promovem desprezo pelo feminino. As empresas de tecnologia têm um papel crucial nesse cenário, pois a monetização dessas narrativas gera enormes lucros.
Embora nem todos os discursos de superioridade masculina promovam explicitamente agressão física, há tendências preocupantes, como o caso do “caso ela diga não”, em que homens ensinam a reagir a negativas com violência. Muitos “coaches red pill” incentivam a desvalorização e a submissão feminina através de manuais que confortam frustrações de muitos homens, especialmente os mais jovens.
Educação e Conscientização
Diante desse cenário, a formação de meninos conscientes é essencial. Somente a supervisão de tempo de tela e controle parental não são suficientes. É fundamental educar meninos sobre equidade de gênero, consentimento e respeito. Eles precisam entender os conceitos de masculinidade e os riscos da masculinidade tóxica. As famílias desempenham um papel crítico ao criar um ambiente que incentive a identificação e a rejeição de mensagens misóginas, ao mesmo tempo em que oferecem apoio emocional.
As instituições de ensino também têm um papel vital nesse processo. Que tipo de cidadãos estamos formando se ignoramos que nossos alunos consomem conteúdos de ódio contra mulheres? É imperativo desconstruir a demonização de termos como “gênero” e “feminismo” nos currículos, pois esses conceitos são fundamentais para combater estruturas machistas.
A Importância da Educação Midiática
Para Gallianne Palayret, representante da ONU Mulheres no Brasil, a educação midiática é essencial para enfrentar esse problema. A simples remoção de canais e perfis misóginos nas plataformas não é suficiente, pois novas contas podem surgir rapidamente, e as mensagens prejudiciais podem se espalhar para o mundo offline.
Formar meninos empáticos é uma tarefa desafiadora, mas necessária. A educação midiática deve estar inserida nesse contexto, pois ao promover a crítica, a diversidade e a cidadania em um mundo cada vez mais conectado, ela também contribui para o combate ao ódio direcionado a meninas e mulheres, seja no ambiente virtual ou fora dele.

