Um Encontro de Culturas na Fundação Montresso
No dia 8 de fevereiro, às vésperas do Carnaval, o bloco Ilú Obá De Min, composto por mulheres negras de São Paulo, atraiu a atenção de uma multidão em Marrakech, durante o lançamento de uma exposição na Fundação Montresso. Este importante centro de arte marroquina foi o cenário de um cortejo que começou no pátio, próximo a uma escultura dedicada a Tia Ciata, figura emblemática do samba. O evento não apenas celebrou a cultura brasileira, mas também se transformou em um ritual onde telas, esculturas e instalações foram abençoadas. Como diz um conhecido verso, “Nossa gente é quem bendiz, é quem mais dança, os gringos se afinavam na folia”.
A exposição intitulada Diáspora do Tambor, sob minha curadoria, reúne obras de oito artistas contemporâneos de renome, que têm suas criações profundamente influenciadas pelo ritmo do batuque afro-brasileiro. Entre eles, três artistas são originários de São Paulo. Esta mostra, que se destaca na 1-54, a maior feira de arte contemporânea africana do mundo, é resultado do programa IN-Discipline, que anualmente apresenta uma cena artística de um país africano ou da diáspora na Fundação Montresso.
O Tambor como Símbolo de Resistência Cultural
Ao aceitar o convite para curar a exposição, escolhi o tambor como símbolo da herança afro na nossa cultura. Historicamente, durante o período colonial, os africanos eram proibidos de trazer seus instrumentos nos navios negreiros. Como reação, eles recriaram suas tradições no Brasil, onde os ritmos africanos se fundiram com os batuques dos povos indígenas e elementos da música europeia. Esses tambores, fruto de uma resistência cultural, tornaram-se instrumentos de luta contra o racismo, transformando a música e a festa em armas de resistência.
A relação entre os tambores e as artes visuais no Brasil não é nova. Artistas renomados como Tarsila do Amaral, Heitor dos Prazeres e Hélio Oiticica já exploraram essa conexão. Entre julho de 2025 e janeiro de 2026, os artistas selecionados para a Diáspora do Tambor foram convidados a desenvolver suas obras durante uma residência na Fundação Montresso. Um dos destaques é um barco metálico criado por Cássio Markowski, artista de Guaratinguetá que vive em Portugal, que simboliza a dor dos 12 milhões de africanos que foram forçados a cruzar o Atlântico em busca de trabalho. O artista angolano Blackson Afonso, também residente em Portugal, apresentou um tríptico que reflete sobre a superação desse trauma. Outras obras da exposição questionam o papel da festa como forma de aglomeração e resistência à opressão.
Homenagens e Inovações na Exposição
A artista Mônica Ventura, de São Paulo, é responsável pela obra que homenageia Tia Ciata, padroeira do samba no Rio de Janeiro. Em projetos anteriores, Ventura destacou a memória de mulheres negras fundamentais na história brasileira, como Acotirene e Dona Afra. Outro artista paulistano, No Martins, está prestes a inaugurar sua primeira exposição individual no Museu de Arte do Rio, com quatro telas inspiradas no marabaixo, uma manifestação cultural do Amapá que se baseia na percussão afro-brasileira. Hebert Amorim, um carioca radicado em São Paulo, também explorou o tamborzão do funk carioca, enquanto o paraense Bonikta criou um tríptico sobre os tambores afro-amazônicos do carimbó. A exposição ainda conta com um vídeo inédito da artista cearense biarritzzz, que explora as conexões históricas entre o norte da África e o sertão brasileiro. Um altar-portal, concebido pelo franco-brasileiro Alexis Peskine em homenagem a Ogum, orixá que abre caminhos na mata, sugere novos horizontes para a diáspora, refletindo sobre as encruzilhadas deixadas pela escravidão.
Marrakech como Centro de Arte Africana
Nos últimos quinze anos, Marrakech se consolidou como um importante polo da arte africana, com a inauguração de museus como o Al Maaden e o Yves Saint Laurent, localizado no emblemático Jardim Majorelle, que foi refúgio do famoso estilista franco-argelino. A Fundação Montresso, sob a direção artística de Estelle Guilié, é um dos centros mais relevantes para o apoio à criação artística na cidade. Desde 2009, a fundação ocupa um extenso jardim a cerca de 20 quilômetros do centro de Marrakech, contando com três galerias, nove ateliês, uma serralheria e uma equipe de aproximadamente 40 profissionais, que prestam suporte a cerca de 120 artistas anualmente. O fundador da fundação, Jean-Louis Haguenauer, ressalta que, em um mundo onde a globalização tende a uniformizar as culturas, a acolhida de artistas de diversas origens é uma mensagem de esperança.

