Reflexões sobre a Inteligência Artificial no Ensino
No último domingo, 15 de outubro, celebramos o Dia da Escola, uma data que neste ano coincide com um debate crucial acerca da utilização da Inteligência Artificial (IA) nas instituições de ensino. Na próxima segunda-feira, 16, o Conselho Nacional de Educação (CNE) irá votar um parecer que estabelece diretrizes específicas para a aplicação da IA nas escolas de educação básica e universidades brasileiras.
Esse documento é fruto de um extenso debate que durou cerca de um ano e meio, envolvendo o Ministério da Educação (MEC), a Unesco e diversos especialistas na área. A versão atual do texto, que já passou por algumas revisões solicitadas pelo MEC, ainda precisa ser submetida à consulta pública, ao plenário do conselho e, por fim, à homologação do Ministro da Educação.
Supervisão Humana e Limites para a IA nas Escolas
Conforme aponta o relatório em discussão, a integração da IA nas escolas deve ter um enfoque estritamente educativo e sempre sob a supervisão de profissionais da educação. O texto enfatiza a proibição da atuação pedagógica completamente automatizada, garantindo que a tecnologia atue apenas como suporte.
Um exemplo prático dessa abordagem é a avaliação dos alunos: enquanto a IA pode ajudar na correção de provas objetivas, a análise qualitativa e a decisão final sobre as notas continuam sendo de responsabilidade do professor. Além disso, o uso de ferramentas automatizadas para correções de avaliações dissertativas ou formativas é expressamente proibido.
Integração Curricular e o Papel do Educador
A proposta prevê que a IA seja incorporada ao currículo de maneira transversal e interdisciplinar, abrangendo desde a educação básica até o ensino superior. Um dos principais pilares do documento é a formação dos professores, com foco especial nos cursos de licenciatura.
O intuito é preparar os futuros docentes para desenvolver competências técnicas e críticas que lhes permitam lidar com aspectos éticos, análise de dados educacionais e mediação tecnológica em ambientes híbridos e digitais. Assim, a IA deixa de ser uma ferramenta externa para se tornar uma integrante do processo de ensino-aprendizagem, sob a supervisão atenta do educador.
Uma Perspectiva Especializada sobre a IA nas Escolas
Segundo a especialista em educação Claudia Costin, a inserção da IA traz consigo um dualismo entre riscos e oportunidades. Embora o temor da substituição de postos de trabalho não altere diretamente a forma de ensinar, ela salienta a necessidade de cuidados essenciais. O principal deles é assegurar que a figura humana continue a ser central no ambiente escolar, sem ser substituída por sistemas automatizados.
“Observando países com sistemas educacionais de excelência, percebemos que a resposta a esse desafio tem sido focar no ensino voltado à resolução colaborativa de problemas complexos, criatividade e pensamento crítico e sistêmico. O objetivo é criar escolas que ensinem a pensar, não apenas a acumular informações”, destaca Claudia.
Essa mudança requer uma educação que valorize princípios, atitudes e a protagonismo dos jovens, diretrizes que já estão sendo trabalhadas na Base Nacional Comum Curricular (BNCC).
Oportunidades Pedagógicas e a Função do Professor
Por outro lado, a IA oferece diversas possibilidades, especialmente como suporte para os educadores. De acordo com a pesquisa TALIS, cerca de 54% dos professores brasileiros de educação básica já utilizam IA em suas práticas. Com a formação adequada oferecida pelas redes de ensino, essa utilização tende a se aprimorar.
A integração da IA nas salas de aula brasileiras já é uma realidade que transforma a prática docente. Nesse cenário, as novas ferramentas digitais têm se consolidado como aliadas estratégicas em três áreas principais: planejamento, avaliação e personalização do ensino.
“Com o suporte tecnológico, é possível para os educadores alinharem os currículos estaduais às diretrizes da BNCC com maior eficiência, facilitando a elaboração de planos de aula personalizados em conjunto”, afirma.
Na área de linguagens, por exemplo, destaca-se a correção assistida de redações. O intuito não é automatizar a nota, mas fornecer feedbacks detalhados sobre estrutura e argumentação, funcionando como um guia para que o aluno identifique suas falhas e melhore sua escrita. Além disso, plataformas adaptativas complementam o material didático físico, respeitando o ritmo individual de cada estudante.
Compromisso Ético na Implementação da Tecnologia
No entanto, a adoção de tecnologias também traz consigo uma responsabilidade pedagógica. “Não se trata apenas de ensinar a criar comandos ou ‘prompts’, mas de promover um uso ético, seguro e crítico da tecnologia”, ressalta Claudia.
Ela completa: “Ao priorizar a cidadania digital, as escolas preparam os jovens não apenas para um mercado de trabalho cada vez mais tecnológico, mas também para uma atuação consciente e responsável na sociedade”.

