Desordem no Galeão
Após longas horas de voo em assentos que nem sempre oferecem o conforto desejado, pousar é geralmente um alívio para qualquer viajante. No entanto, essa sensação de conforto pode rapidamente se transformar em estresse no Aeroporto Internacional Antonio Carlos Jobim, conhecido como Galeão. Muitos que desembarcam se deparam com um verdadeiro desafio ao deixarem o terminal. Especialmente na área de chegadas internacionais, a experiência é marcada por abordagens insistentes e, por vezes, intimidadoras, de pessoas oferecendo serviços como táxi, transporte por aplicativo, limpeza de calçados, chips de celular, passeios e câmbio de moeda.
Em uma coluna recente do GLOBO, o historiador Thiago Gomide observou que desembarcar no Galeão se assemelha a uma “prova de resistência”.
Abordagens Intimidatórias
Uma visita do GLOBO ao terminal em dias de março revelou como essa dinâmica causa mais transtornos do que facilita a vida dos viajantes. Ao deixar a área restrita, os passageiros são imediatamente abordados por representantes de cooperativas de táxi credenciadas, que constituem a primeira linha de ofertas.
Fora dessa área, a situação se complica. A enxurrada de abordagens de pessoas não identificadas, como homens vestidos com camisetas amarelas apenas com a palavra “táxi”, cria um ambiente caótico. Ao tentarem recusar as ofertas, muitos passageiros se veem sendo seguidos e persuadidos com promessas de preços atrativos que, na maioria das vezes, não são garantidos. Embora o aeroporto possua uma área destinada para táxis credenciados e um Uber Lounge, aqueles que se deixam enganar por esses abordadores acabam sendo levados para longe do setor correto.
Os Estrangeiros na Mira
Os turistas estrangeiros, frequentemente desavisados, se tornam alvos fáceis nesse cenário. Recentemente, uma turista asiática se aproximou de um grupo de pessoas, perguntando se alguém falava inglês. Um dos abordadores aproveitou a oportunidade e começou a direcioná-la para a área de embarque. Após se esquivar de diversas abordagens, a turista acabou buscando ajuda no balcão de informações.
Relatos de assédio são comuns. Uma carioca, a advogada Mariana Bogado, de 46 anos, relatou uma situação que a deixou indignada. Ao sair acompanhada de sua mãe de 73 anos, ela foi interrompida por homens oferecendo serviços de transporte. Mariana exclamou: “Isso é assédio!”, ao que um dos homens respondeu em tom de deboche: “Vai com Deus”, enquanto continuava a segui-las.
Conflitos e Assédio
Além das abordagens insistentes, o ambiente é marcado por disputas acaloradas entre aqueles que oferecem serviços. A reportagem presenciou um limpador de tênis gritando para outro que iria “estourar a cara” dele, enquanto um carregador de bagagens quase se envolveu em uma briga com um motorista de aplicativo. Em meio a esse cenário, os carregadores de bagagem, que deveriam estar ali para ajudar os viajantes, frequentemente se envolvem em atividades de câmbio ilegal. Eles se aproximam discretamente, oferecendo taxas mais vantajosas que as casas de câmbio oficiais.
Desafios para a Segurança
Essas práticas ilegais e a desordem ocorrem sob o olhar atento de autoridades públicas, como agentes da Polícia Militar e da Guarda Municipal, que circulam pelo saguão. Apesar da presença das polícias Civil e Federal, que têm postos fixos no aeroporto, as abordagens agressivas continuam a acontecer sem intervenção significativa.
Alfredo Lopes, presidente do HotéisRIO, um sindicato de meios de hospedagem, alerta que essa situação prejudica a imagem do Rio de Janeiro. Segundo ele, “um viajante que chega cansado do voo não pode ser submetido a esse tipo de incômodo”.
Compromisso com a Segurança
Em resposta às críticas, a RIOGaleão informou que trabalha em conjunto com os órgãos de segurança para mitigar essas situações. A nova concessionária, a espanhola Aena, que recentemente venceu o leilão para operar o aeroporto, também se comprometeu a buscar soluções para melhorar a experiência dos passageiros. Enquanto isso, a Polícia Federal investiga as práticas de câmbio ilegal, mas não divulga detalhes sobre andamentos de suas investigações. A Polícia Civil, por sua vez, afirmou que todas as práticas criminosas são investigadas com rigor.
Enquanto isso, a vida continua no Galeão, onde desembarcar se tornou uma verdadeira maratona para os viajantes que apenas desejam deixar o aeroporto em paz.

