O Camarão e os Protagonistas da Cidade
Um personagem inusitado circulava pelo Centro do Rio, especialmente na Rua da Assembleia, sempre acompanhado dos gritos entusiasmados da multidão – “Camarão! Camarão!”. Essa cena, que mais parecia um espetáculo performático, transformava seu cotidiano em um verdadeiro happening. As pessoas, dos prédios e lojas nas redondezas, interagiam com ele, enquanto o homem de terno e gravata, segurando uma pasta, respondia com risos nervosos e palavrões, alimentando ainda mais a diversão do público.
Recentemente, o Camarão fez uma aparição inesperada em minha vida. Ao revisitar obras de Carlos Heitor Cony, deparei-me com um bilhete esquecido dentro de um de seus livros, intitulado “O harém das bananeiras”. Nesse bilhete, o autor me parabenizava por uma crônica que escrevi, na qual mencionei o Camarão. Cony também havia utilizado o personagem em sua obra, e uma de suas crônicas trazia uma passagem sobre a Rua da Assembleia. Ele descreveu como, assim que Camarão aparecia, as pessoas deixavam suas atividades, retornando a um estado de inocência, como se experimentassem um momento de infância perdido.
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Mas, onde estarão esses personagens que contribuíam para a narrativa mais íntima de uma cidade?
Recordações de Outros Típicos Personagens Cariocas
Nas barcas que ligam Rio a Niterói, havia um outro personagem, que se apresentava como o único capaz de correr em zigue-zague para frente e para trás. Ele encantava os passageiros na Praça XV com suas excentricidades. Isso remete a tempos nostálgicos, quando a mulher de branco de Ipanema e o profeta Gentileza eram parte do cotidiano carioca.
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Sem querer soar como um sociólogo, mas a verdade é que, ao recordar do jovem que vendia amendoim no viaduto de Botafogo, percebo como as multidões contemporâneas, cada vez mais despersonalizadas, invadem os bairros e ofuscam os protagonistas locais. No Leblon, existia seu Francisco das Flores, um homem de smoking que oferecia rosas a todas as mulheres que cruzavam seu caminho, independentemente de sua aparência. Já na Rua Prado Júnior, o farmacêutico Zé das Medalhas era uma figura emblemática. Com seu peito adornado por medalhas e amuletos, ele se tornou parte da paisagem, aplicando injeções e interagindo com os frequentadores da drogaria.
Embora eu não pretenda fazer uma análise sociológica profunda, não posso deixar de destacar que esses personagens únicos conferiam uma identidade particular aos locais. Eles eram o oposto da massa anônima que hoje desce dos metrôs e aeroportos, alimentando um folclore urbano e funcionando como um elo entre diferentes gerações. É quase como ouvir ao fundo o saxofonista Ademir, tocando “Blue Moon” na estação da Carioca.
Transformação Urbana e a Nostalgia do Passado
Com o passar do tempo, as cidades se tornaram mais formais e higienizadas. Os personagens populares que costumavam povoar as ruas agora parecem existir apenas nas redes sociais. O Camarão, que se tornou símbolo de uma época que celebro junto a Carlos Heitor Cony em seus 100 anos, talvez tenha encerrado sua trajetória em uma delegacia, o que é uma pena.
As ruas, que antes eram repletas de alegria e cor, agora parecem diferentes. Lembro do gari Sorriso, que deixava tudo mais leve, varrendo as ruas com um sorriso no rosto. Até mesmo os cemitérios eram lugares mais vibrantes, com Jaime Sabino, o funcionário público que se tornou célebre por carregar caixões de celebridades, expressando sua consternação nas telinhas da TV, sempre com a mesma frase tocante: “Mais um pedaço do Brasil que se foi…”. Essas recordações nos fazem refletir sobre o que perdemos ao longo dos anos e como a memória dos nossos personagens continua viva.

