Desempenho Insatisfatório dos cursos de Medicina
Nos últimos anos, especialmente desde 2018, cursos de Medicina inaugurados no Brasil têm enfrentado um desempenho abaixo das expectativas no Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica (Enamed). Segundo o Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (Ieps), esses cursos frequentemente estão localizados em cidades pequenas e contam com uma proporção reduzida de docentes com doutorado. Embora o Ministério da Educação (MEC) tenha interrompido a autorização para novas graduações nesse período, decisões judiciais têm possibilitado a abertura de instituições sem seguir os padrões técnicos exigidos.
A pesquisa do Ieps revela que a maioria das graduações com notas insatisfatórias, como 1 e 2, apresenta um cenário em que apenas 25% dos professores são doutores em tempo integral. Essas instituições, na sua maioria, são privadas e têm fins lucrativos, localizadas em cidades com até 100 mil habitantes. O estudo destaca que, desde a sua criação, o Enamed, aplicada anualmente, revela a preocupação com a qualidade do aprendizado dos futuros médicos.
Concentração de Cursos de Alta Performance
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Fonte: cidaderecife.com.br
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Fonte: edemossoro.com.br
Em contrapartida, os dados do Ieps indicam que os cursos de Medicina com as notas mais altas (4 e 5) estão predominantemente em municípios com mais de 500 mil habitantes, sendo oferecidos por instituições públicas, com uma significativa maioria de professores doutores, mais de 75%, atuando em regime de dedicação integral. Tal disparidade evidencia a necessidade de uma análise aprofundada das condições de ensino e aprendizado em diferentes contextos geográficos e sociais.
Segundo a nota técnica do Ieps, a atuação das escolas médicas privadas com baixo desempenho deveria focar em melhorias substanciais, como a qualificação do corpo docente e a promoção de práticas em hospitais adequados. Adicionalmente, as instituições devem proporcionar bolsas de estudos para estudantes com necessidades sociais, visando assim criar um ambiente acadêmico mais robusto e diversificado.
Exigências para a Melhoria da Qualidade
A pesquisa sugere que é imperativo que as instituições sejam mais rigorosas quanto às avaliações de progresso dos alunos, corrigindo deficiências de aprendizado de forma precoce. Em caso de persistência das falhas, as universidades podem ser fechadas como medida extrema. Este posicionamento surge em um contexto onde, dos 71 cursos inaugurados desde 2018, apenas 24% atingiram os níveis mais altos, enquanto a maioria, 51%, ficou nas faixas mais baixas do Enamed.
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Fonte: soudebh.com.br
Embora o estudo não quantifique o número exato de graduações criadas por ordem judicial, é importante ressaltar que o MEC não autoriza novos cursos desde 2018. Apesar disso, muitos grupos conseguiram abrir instituições por meio de decisões judiciais que não consideraram critérios técnicos relevantes anteriormente estabelecidos pela pasta.
A Importância da Regulação e da Experiência
A análise do Ieps mostra que, entre os cursos fundados até 2012, apenas 18% estavam entre os piores níveis, enquanto a maioria, 61%, obteve notas altas. Rudi Rocha, professor da Fundação Getulio Vargas, enfatiza que a falta de clareza na regulação, junto à abertura de cursos por ordens judiciais, pode comprometer a estrutura de qualidade das instituições, refletindo em um desempenho acadêmico aquém do esperado.
A Associação Brasileira de Mantenedoras de Ensino Superior (ABMES) argumenta que as instituições mais recentes enfrentam um processo natural de consolidação e amadurecimento. Segundo a ABMES, isso não equivale a uma fragilidade na regulação ou nos processos de autorização, mas sim a um período de adaptação.
Consequências da Judicialização
Em 2018, o MEC implementou uma moratória de cinco anos para a abertura de novas vagas em cursos de Medicina, visando controlar o crescimento desordenado de instituições e preservar a qualidade do ensino. Entretanto, essa determinação foi contornada por decisões judiciais, que resultaram na criação de 127 novas graduações mesmo durante o período de suspensão. Em 2023, o MEC lançou um novo edital com regras para a abertura de cursos, mas essa iniciativa foi suspensa em 2026 para reavaliar a expansão dos cursos de Medicina no país.
Em nota, o MEC informou que já recorreu em diversas instâncias para reverter algumas das decisões que permitiram a abertura de cursos sem uma análise técnica adequada, salientando que esta judicialização tem distorcido a política pública de educação e possibilitado o surgimento de instituições sem necessidade comprovada ou infraestrutura adequada para o ensino.

