Crise política no Rio de Janeiro evidência vínculos entre poder e crime organizado
Em março de 2026, o Rio de Janeiro passou a ser governado interinamente por Ricardo Couto, desembargador e presidente do Tribunal de Justiça, após a renúncia de Cláudio Castro, que deixou o cargo às vésperas de ser cassado pelo Tribunal Superior Eleitoral por abuso de poder político e econômico. A acusação envolvia o desvio milionário da Fundação CEPERJ, usada como caixa eleitoral na campanha de reeleição de 2022. O vice-governador já havia deixado o posto para assumir uma vaga no Tribunal de Contas, enquanto o presidente da Assembleia Legislativa, Rodrigo Bacellar, estava preso sob suspeita de ligação com o Comando Vermelho. Esgotadas as alternativas na linha sucessória, o comando do estado ficou a cargo do presidente do Tribunal de Justiça.
Essa sequência de eventos revela a degradação estrutural do sistema político fluminense, construída ao longo de décadas em que governos trataram o Estado como propriedade particular. Bases eleitorais foram erguidas em territórios sob controle do crime, com conivência ao avanço das milícias e à crescente simbiose entre política e organizações criminosas.
Violência no Rio: um pilar funcional da economia local
Mais do que uma anomalia a ser corrigida por boas políticas de segurança pública, a violência no Rio de Janeiro funciona como elemento central para a reprodução do capital local. A articulação entre poder formal e paralelo cria condições para uma exploração sistemática e intensa da população, conforme apontado por conceitos de superexploração do sociólogo Ruy Mauro Marini.
Para Marini, economias dependentes extraem valor da força de trabalho de forma mais intensa que o capitalismo central, prolongando jornadas, aumentando a intensidade e reduzindo salários abaixo do necessário à sobrevivência. No Rio, essa dinâmica é reforçada não só pelo mercado, mas por uma estrutura de dominação que combina violência estatal, controle territorial armado e desinvestimento calculado em serviços públicos.
Milícias e tráfico: controle territorial e econômico
Nos anos 2000, milícias formadas majoritariamente por policiais e agentes de segurança pública surgiram com o discurso de combater o tráfico nas comunidades. No entanto, substituíram um controle por outro, mais organizado e protegido institucionalmente. Hoje, dados do Instituto de Segurança Pública e do Fogo Cruzado indicam que as milícias dominam mais da metade da área geográfica da capital, controlando serviços essenciais como gás, transporte alternativo, construção irregular e venda de lotes.
Essa dominação resulta em monopólio e extorsão, eliminando qualquer possibilidade de escolha para quem vive nessas áreas. O tráfico, por sua vez, adotou práticas semelhantes, diversificando sua atuação econômica para além da venda de drogas.
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Articulação entre Estado e crime: mercadoria política e impunidade
O Estado negocia com grupos criminosos por meio de “mercadorias políticas” — proteção, omissão, alvarás, contratos e impunidade — que articulam polícia, milícias, tráfico, empresários e políticos eleitos. Essa relação não é uma disfunção temporária, mas o modo histórico de funcionamento do poder local no Rio de Janeiro.
Superexploração e vida cotidiana sob controle armado
Mais da metade dos trabalhadores no Rio está na informalidade, sem direitos trabalhistas, previdência ou proteção social, enfrentando uma economia desindustrializada e serviços públicos sucateados. Nas áreas dominadas pelo crime, a população ainda paga preços extorsivos por serviços que deveriam ser garantidos pelo Estado, como gás, internet e transporte, além da ausência de creches, postos de saúde e escolas em período integral.
Esse cenário cria múltiplas camadas de extração sobre a vida do trabalhador, que enfrenta jornadas extenuantes, altos custos de vida, monopólios criminosos e falta de serviços públicos, sem alternativas reais para escapar da exploração.
Violência e necropolítica: a coerção pelo medo e pela morte
A violência no Rio não é efeito colateral, mas instrumento central da dominação. Segundo o filósofo Achille Mbembe, a necropolítica refere-se a um regime que exerce poder sobre corpos que podem ser mortos sem que isso seja considerado crime. No Rio, a morte de jovens negros em operações policiais raramente é punida, naturalizando o extermínio em determinadas comunidades.
Esse regime de exceção permanente se manifesta também pela ameaça constante: toques de recolher informais, presença armada que regula a circulação e a rotina, e operações policiais que paralisam serviços públicos. A violência política destrói as condições para organização coletiva e resistência, tornando a exploração estável e difícil de contestar.
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Estado capturado e desafios para a transformação
O Rio de Janeiro vive uma crise política onde o Estado foi capturado tanto por interesses do capital financeiro e grandes contratantes, que drenam recursos públicos, quanto por redes criminosas que controlam territórios e recebem proteção do poder público. A população fica no meio, pagando impostos e taxas a grupos armados que oferecem uma ordem precária em substituição à ordem pública ausente.
O sucateamento dos serviços públicos contribui para essa espoliação, pois o orçamento é desviado por essa articulação criminosa, beneficiando uma classe política e as redes que a sustentam.
Governos e intervenções se sucedem, mas as estruturas de dominação permanecem sólidas devido ao alto custo de enfrentá-las. Desmantelar o crime organizado é condição estratégica para a libertação do povo fluminense. Enquanto milícias e tráfico dominarem territórios, a superexploração e a violência serão sustentadas, inviabilizando melhorias duradouras nas condições de vida.
Além das ações policiais, é fundamental depurar o Estado de vínculos criminosos e ampliar a presença estatal por meio de investimentos em serviços públicos essenciais. Embora esse projeto ainda não tenha força política suficiente, sua construção é urgente para garantir a existência digna da maioria da população do Rio de Janeiro.
Assim, a superexploração e a violência no Rio não são fenômenos isolados, mas parte de uma estrutura complexa que exige respostas políticas, sociais e organizativas para romper um ciclo que ameaça a vida e os direitos de milhões.

