Projetos Prioritários para Transformar a Mobilidade no Rio
Imagine embarcar no metrô na Gávea, atravessar o Maciço da Tijuca e chegar à estação Uruguai, na Tijuca, seguindo até Del Castilho, na Zona Norte. Ou então utilizar o BRT Transbrasil de Deodoro até Santa Cruz, o bairro mais distante da cidade. Para facilitar deslocamentos na Zona Sul, a proposta prevê um VLT passando por Botafogo, Gávea e Leblon. Uma ligação metroviária entre Estácio e Praça Quinze, ponto inicial da sonhada Linha 3 que atravessaria a Baía de Guanabara rumo a Niterói e São Gonçalo, também está no radar. Além disso, o sistema de trens receberia uma completa requalificação.
Essas iniciativas fazem parte do Estudo Nacional de Mobilidade Urbana (ENMU), elaborado pelo BNDES e pelo Ministério das Cidades, que identificou 15 projetos prioritários para o Rio de Janeiro entre um total de 187 em 21 Regiões Metropolitanas do país. Com investimento estimado em R$ 68,4 bilhões para os próximos 23 anos, a expectativa é ampliar a rede de transporte de alta e média capacidade — metrô, VLT e BRT — de cerca de 500 para quase 700 quilômetros, aumentando a capacidade diária de passageiros de 1,6 milhão para 5,9 milhões em dias úteis.
Desafios Atuais e Impacto no Dia a Dia
O episódio recente de um caminhão tombado em Botafogo e os problemas na sinalização que afetaram a Linha 1 do metrô evidenciam os desafios diários enfrentados pelos usuários do transporte público. Elza Dias Alves, diarista e cuidadora de idosos, relatou sua rotina exaustiva ao sair do Pantanal, em Caxias, às 6h20 e chegar ao trabalho em Copacabana apenas às 10h, enfrentando atrasos e superlotação nos trens e metrôs.
Ela conta que, em Gramacho, perdeu um trem e esperou 25 minutos pelo próximo, viajando em pé. Na Central do Brasil, enfrentou multidões nas escadas rolantes e plataformas, sendo empurrada para dentro de vagões lotados até Botafogo, onde teve que esperar novamente para alcançar Copacabana. Mesmo em dias sem acidentes, Elza observa que o transporte público está mais cheio do que antes, refletindo a necessidade urgente de melhorias.
Detalhamento dos Projetos e Próximos Passos
Dois dos projetos priorizados pelo BNDES envolvem a transformação dos corredores BRT Transcarioca e Transoeste em sistemas de VLT (Veículo Leve sobre Trilhos) ou VLP (Veículo Leve sobre Pneus). A instituição está elaborando estudos de viabilidade, que deverão ser concluídos no início de 2027. A partir daí, poderá ser proposta uma concessão, com intervenções financiadas pela tarifa, ou uma Parceria Público-Privada, com investimentos públicos e privados. A decisão sobre licitação ficará a cargo da Prefeitura do Rio, explica Nelson Barbosa, diretor de Planejamento e Relações Institucionais do BNDES.
Além disso, a licitação para o projeto de extensão do BRT Transbrasil, que ligará Deodoro a Santa Cruz, já foi realizada pela Secretaria Municipal de Infraestrutura. A pasta aguarda a conclusão de trâmites administrativos junto ao governo federal para avançar com o desenvolvimento. Outro corredor, que ligaria Campo Grande à Margaria, está em fase inicial de estudos.
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Investimentos e Prioridades Governamentais
Segundo Nelson Barbosa, a execução dos 15 projetos não será simultânea, seguindo a ordem de prioridade definida pelo governo estadual e pela Prefeitura do Rio. Os recursos para obras e veículos poderão ser oriundos de fontes públicas, inclusive da União, e da iniciativa privada.
Dentre as propostas, cinco são relacionadas ao metrô, incluindo a Linha 6, que começaria no terminal Alvorada, na Barra da Tijuca, passaria por Jacarepaguá e chegaria até Cocotá, na Ilha do Governador, aproveitando parte do trajeto já coberto pela Transcarioca. Outra proposta prevê a ligação metroviária entre o Centro e Deodoro, utilizando um ramal ferroviário já existente.
Bonde, Ferrovias e BRT: Expansão e Modernização
O estudo também contempla cinco projetos para implantação de bondes elétricos (VLT), com trajetos previstos para Niterói e São Cristóvão. O percurso do VLT na Zona Sul ainda será detalhado, mas estima-se que passe por pontos como a Praça Antero de Quental, a Cobal do Leblon, a PUC, o Hospital da Lagoa e o Colégio Pedro II, além de ruas importantes como Voluntários da Pátria e São Clemente.
Há ainda propostas para requalificar 270 quilômetros de ferrovias e quatro projetos voltados ao BRT, incluindo novos corredores elétricos na Baixada Fluminense (Transbaixada) e entre Jardim Oceânico, Freguesia e Taquara, em Jacarepaguá.
Benefícios e Desafios Segundo Especialistas
Marcos Daniel Souza dos Santos, secretário nacional de Mobilidade Urbana do Ministério das Cidades, destaca que a seleção dos projetos considerou a demanda de passageiros e os benefícios ambientais e de segurança:
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“Os benefícios são tão significativos que justificam investimentos de R$ 68 bilhões. Tirar ônibus comuns e carros das ruas traz vantagens que vão além da mobilidade, reduzindo emissões de gases e acidentes. Apesar dos desafios de engenharia, temos capacidade técnica para realizar essas obras.”
Para o professor Glaydston Ribeiro, da Coppe/UFRJ, o metrô e os trens urbanos devem ser a espinha dorsal do sistema metropolitano, por sua capacidade de transportar grandes volumes com regularidade e rapidez, além de ocupar menos espaço viário. Isso é fundamental para reduzir o tempo de deslocamento e ampliar o acesso da população a emprego, serviços e educação.
Análise das Prioridades e Críticas às Propostas
Marcus Quintella, diretor da FGV Projetos, destaca como urgentes a requalificação do sistema ferroviário, a conclusão do trecho entre Estácio e Praça Quinze na Linha 2, e a construção da Linha 3 até São Gonçalo, ressaltando a importância de interligá-las. Contudo, ele critica a proposta do VLT na Zona Sul, apontando que sua construção causaria graves impactos, paralisando corredores essenciais e dificultando a circulação local.
Ricardo Lafaiette, diretor da Associação Fluminense de Preservação Ferroviária, defende que as prioridades sejam os projetos ligados aos trens, a conclusão da Linha 2 e a implantação da Linha 3, além da criação do VLT em São Cristóvão. Para ele, a Linha 6, que cobre trajeto semelhante ao Transcarioca, não é prioridade, e a extensão do metrô da Gávea a Del Castilho não deve ser foco imediato. A transformação do ramal ferroviário de Deodoro em metrô de superfície é considerada uma boa ideia, apesar do custo elevado, já que é o ramal que recebe os trens mais modernos.
Perspectivas da Secretaria Estadual de Transporte e Mobilidade Urbana
A Secretaria estadual de Transporte e Mobilidade Urbana (Setram) confirma que a complementação da Linha 2 e a criação da Linha 3 estão entre as expansões metroviárias prioritárias em estudo. Para a Linha 3, já há R$ 20 milhões do Ministério das Cidades destinados à contratação do projeto. A secretaria também aposta que a chegada de um novo operador para os trens urbanos trará uma fase renovada para o sistema ferroviário da Região Metropolitana do Rio.

