Monitoramento rigoroso das operações policiais no Rio de Janeiro
O Dicionário de Favelas Marielle Franco mantém um acompanhamento sistemático das operações policiais na cidade do Rio de Janeiro, em parceria com diversas instituições dedicadas à pesquisa e à defesa dos direitos humanos. Essa iniciativa se materializa por meio de verbetes publicados na WikiFavelas, que reconstroem a cronologia das chacinas na capital fluminense. Dessa forma, é possível observar a continuidade das práticas violentas entre diferentes governos e gestões da segurança pública. Alguns desses verbetes mapeiam as principais chacinas ocorridas entre 1990 e 2025, além de cobrir todos os episódios violentos registrados nos períodos de 2019 a 2022 e de 2023 a 2026. A plataforma também reúne conteúdos específicos sobre a violência estatal na Baixada Fluminense, além de destacar a atuação da Rede de Mães e Familiares da Baixada Fluminense, um movimento que une memória e luta por justiça para as vítimas da violência policial na região.
Boletim especial destaca cinco anos de operações na Baixada
Em julho de 2026, a Iniciativa Direito à Memória e Justiça Racial (IDMJRacial), pioneira no monitoramento e sistematização das operações policiais na Baixada Fluminense, lançou o boletim “5 anos de operações policiais na Baixada Fluminense/RJ”, que analisa eventos ocorridos entre 2020 e 2025. O material está disponível na WikiFavelas, onde também podem ser encontrados relatórios anteriores produzidos pela IDMJRacial.
A pesquisa foi realizada a partir da análise manual de dados extraídos das redes sociais da Polícia Militar e da Polícia Civil. O objetivo foi mapear as áreas de atuação das forças policiais, incluindo informações sobre prisões, homicídios, ferimentos, apreensão de drogas, armas, veículos e remoção de barricadas. O estudo abrange o período histórico de 2020 a 2025, que inclui os desafios impostos pela pandemia de covid-19, as restrições às operações policiais decorrentes das medidas cautelares da Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental 635 (ADPF das Favelas) e outras mudanças na atuação do Estado em favelas e periferias.
Violência estatal e discursos sobre segurança pública ao longo das décadas
A IDMJRacial enfatiza que o relatório não apenas aponta os problemas recentes, mas também evidencia que a concepção de violência aplicada pelo Estado do Rio de Janeiro foi construída há décadas e permanece ativa. Desde o período pós-redemocratização, a expansão das favelas e o aumento da desigualdade social foram frequentemente associados à elevação da violência, reforçando a ideia de correlação entre pobreza e criminalidade. Na década de 1990, com a consolidação do comércio de drogas e a circulação de armamento pesado, inclusive fuzis, o discurso público reforçava essa associação, atribuindo também à baixa escolaridade o aumento da criminalidade.
No fim dos anos 1990 e início dos anos 2000, com a consolidação territorial do Comando Vermelho, a Polícia Militar intensificou suas operações, tornando a violência policial mais visível e ostensiva. Posteriormente, a criação das Unidades de Polícia Pacificadora (UPP) inaugurou um ciclo de ocupação policial nas favelas, pautado no discurso oficial de superação da violência e integração social.
Nos anos mais recentes, as operações de alta letalidade evidenciam que a polícia é protagonista da violência urbana, um padrão que se intensificou durante a quarentena da covid-19. Além disso, há uma reconfiguração nas facções criminosas, que não atuam mais apenas na ilegalidade, mas representam também uma forma de poder dentro do Estado.
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Impacto das operações policiais na Baixada Fluminense
A pesquisa revela que, embora a quantidade de operações policiais na Baixada Fluminense tenha diminuído desde 2022, a região não se tornou mais segura. Foram registradas 348 operações em 2020, 515 em 2021, 1.486 em 2022 – o pico do período -, 1.233 em 2023, 1.061 em 2024 e 655 em 2025, totalizando 5.298 ações em cinco anos. No mesmo intervalo, houve 282 mortos e 652 feridos.
A Baixada Fluminense é composta por 13 municípios e é a segunda região mais populosa do estado, com cerca de 4 milhões de habitantes, apresentando grande diversidade territorial. A pesquisa da IDMJRacial identificou uma concentração das operações em áreas específicas. Cinco municípios respondem por 75% das mortes decorrentes de ações policiais na região. Duque de Caxias lidera como a cidade com maior número de mortos e feridos. O 15º BPM, que atende o centro de Duque de Caxias e bairros como Campos Elíseos, Imbariê, Santa Cruz da Serra e Xerém, realizou 1.289 operações, sendo o batalhão com maior número de ações.
O “Ranking da Morte” da pesquisa inclui também Belford Roxo, São João de Meriti, Nova Iguaçu e Japeri. Os dados indicam que a subnotificação dos mortos pode ocorrer, já que não há registros oficiais sobre o estado de saúde das vítimas feridas após as operações.
Polícia Civil e letalidade nas operações
Outro destaque é o aumento expressivo das operações da Polícia Civil na Baixada, que saltaram de 47 em 2020 para 336 em 2024, um crescimento de aproximadamente 615%. Em 2025, o número caiu para 66, mas a taxa de letalidade aumentou significativamente, atingindo 18% – o maior índice da série histórica. Isso mostra que, embora tenham realizado menos operações, as ações da Polícia Civil resultaram em mais mortes proporcionais.
As delegacias com maior número de operações foram a Delegacia de Homicídios da Baixada Fluminense (DHBF), com 64 ações, e a Delegacia de Roubos e Furtos (DRF), com 48. Entretanto, a Delegacia de Repressão a Entorpecentes (DRE) foi responsável por 46% das mortes provocadas pela Polícia Civil, apesar de ter realizado apenas 15 operações, demonstrando uma letalidade desproporcional.
Questionamentos sobre a eficácia das operações policiais
O estudo também ressalta que as apreensões feitas nas operações não sustentam a narrativa oficial de combate ao “arsenal do tráfico”. O item mais apreendido foi a pistola, presente em 21% das ações, seguido por rádio comunicadores em 19,9%. Munições, fuzis, revólveres, granadas e outros equipamentos aparecem em percentuais menores. Quanto a veículos, 60% das apreensões foram motos, enquanto carros, caminhões e vans foram registrados em menor proporção.
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O relatório evidencia que as operações não eliminam armamentos pesados ou drogas em volumes significativos, mas resultam em mortes e prisões sistemáticas. Questiona-se por que ações com 282 mortos em cinco anos resultam predominantemente na apreensão de rádios comunicadores e motos, enquanto os mesmos territórios recebem pouco investimento em saúde, educação, saneamento e assistência social.
Altos números de prisões e encarceramento de adolescentes
Outro dado preocupante é o número de prisões: 5.783 pessoas foram detidas em operações policiais na Baixada entre 2020 e 2025. A Polícia Militar foi responsável por 62% desse total, com o 20º BPM, que atua em Nova Iguaçu, Nilópolis e Mesquita, liderando em prisões.
O sistema socioeducativo também foi impactado, com 40 adolescentes apreendidos durante as operações, sendo 31 somente em 2025. Belford Roxo concentrou 35% dessas apreensões. O relatório conclui que a redução no número de operações não significou diminuição da violência ou da punição.
Programa Barricada Zero e militarização na Baixada
A pesquisa acompanhou ainda as operações dedicadas à remoção de barricadas, que aumentaram com a implantação do Programa Barricada Zero, iniciado em 2025 em Belford Roxo e replicado em todo o estado. Foram registradas 9 ações em 2020, 24 em 2021, 27 em 2022, 92 em 2023, 34 em 2024 e 71 em 2025.
O governo do estado e a Secretaria de Estado da Polícia Militar investiram cerca de R$ 11 milhões em equipamentos de demolição para retirar barricadas. O programa é apresentado como “retomada territorial” e garantia do direito de ir e vir dos moradores, mas na prática mantém a lógica do policiamento ostensivo, com forte aparato bélico e violência, sem benefícios concretos para a população local, que continua enfrentando restrições na rotina devido à presença policial e aos conflitos decorrentes.
A IDMJRacial interpreta que há uma estratégia política de avanço da militarização combinada à expansão da urbanização. Em vez de fortalecer políticas públicas para combater a pobreza, as desigualdades raciais e socioeconômicas e ampliar os direitos da população trabalhadora, o Estado opta por financiar um aparato que gera mais violência, abuso e controle social.

