Impactos da ventania e a urgência de adaptação climática
Na última quarta-feira, fortes rajadas de vento superiores a 100 km/h provocaram um cenário de caos no Rio de Janeiro e em municípios da Região Metropolitana. O episódio deixou um rastro de destruição: pessoas feridas e mortas, casas destelhadas, prejuízos em estabelecimentos comerciais, árvores e postes caídos, além de semáforos quebrados, gerando medo e insegurança entre os moradores.
A Casa Fluminense, organização que atua na Região Metropolitana do Rio de Janeiro em parceria com outras lideranças locais, monitora as respostas públicas por meio do Painel Climático e propõe diretrizes de combate à crise com a Agenda Rio 2030. A entidade reforça a necessidade urgente de planos de adaptação climática para a região, apontando fragilidades nas gestões municipais.
Governança e fragilidades institucionais
Segundo Luize Sampaio, gerente programática da Casa Fluminense, os recentes danos não podem ser atribuídos apenas a um evento natural isolado. Ela destaca três fatores críticos na governança metropolitana: a desigualdade técnica e financeira entre os municípios; a falta de articulação entre os diferentes níveis de governo e setores, como energia, mobilidade e defesa civil, que agem de forma desconexa; e a fragilidade dos sistemas de monitoramento e alerta, que prejudica a antecipação de cenários e a ativação de protocolos de emergência.
Fundada em 2013, a Casa Fluminense é uma organização sem fins lucrativos que fortalece lideranças populares, buscando justiça racial, de gênero, econômica e climática na região. Luize reforça a necessidade de ações claras diante da iminência de eventos climáticos extremos, como o super El Niño, previsto para os próximos meses.
Consequências para o fornecimento de energia e transporte
Na quinta-feira pela manhã, cerca de 279 mil clientes da concessionária Light permaneciam sem energia elétrica após o vendaval. A Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) acompanha o restabelecimento do serviço. Os bairros mais afetados na capital incluem Campo Grande, Bangu, Anchieta, Tijuca, Catumbi, Jacarepaguá, Santa Cruz e Recreio, enquanto na Baixada Fluminense, Nova Iguaçu e Duque de Caxias registraram pontos críticos.
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Devido à extensão dos danos, a reparação da rede elétrica exige a substituição de postes, conserto de estruturas e remoção de árvores caídas, o que torna o processo complexo e demorado. A Light mobilizou 800 equipes e mais de 2 mil profissionais para atuar na recuperação.
Além disso, 346 árvores foram derrubadas pela força do vento, com maior intensidade no Aeroporto Internacional do Galeão, onde as rajadas chegaram a 105,5 km/h. A Prefeitura do Rio ainda trabalhava na remoção de mais de 49 árvores até a noite de quinta-feira.
No setor de transporte, o ramal Japeri do Trens RJ permanecia interrompido para inspeções, enquanto outros ramais operaram normalmente. O VLT retomou suas linhas após a retirada de mais de uma tonelada de lixo dos trilhos. Os sistemas de BRT, ônibus urbanos, Metrô e Barcas funcionaram com intervalos regulares, apesar das dificuldades causadas pela ventania.
Tragédias e investigações em andamento
O vento forte também derrubou um muro em Santa Teresa, no centro do Rio, que matou dois homens. A Polícia Civil investiga se a morte de três pessoas por descarga elétrica em uma residência na Cidade de Deus está relacionada ao vendaval.
Aspectos meteorológicos e relação com o El Niño
O Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) registrou ventos de 105 km/h na capital, resultado da formação de uma zona de baixa pressão e do deslocamento de ar nas camadas superiores da atmosfera, fenômeno conhecido como “escoamento”.
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Marcelo Seluchi, do Centro Nacional de Monitoramento e Alerta de Desastres Naturais (Cemaden), explicou que a ventania foi causada por uma frente de rajada, uma linha de tempestades alinhadas que avançou rapidamente, atingindo o Rio de Janeiro após se formar sobre a Região Sul do Brasil.
Apesar da aproximação do super El Niño, fenômeno que aquece as águas do Oceano Pacífico e altera o clima global, tanto especialistas do Inmet quanto do Cemaden afirmam que ainda não é possível atribuir diretamente o evento de ventos fortes ao fenômeno. A presença cada vez mais frequente de frentes estacionárias no Sul do país pode estar relacionada ao El Niño, mas a ventania em si pode ocorrer em qualquer época do ano.
Thiago Sousa, meteorologista e doutorando da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), ressalta a necessidade de estudos aprofundados para analisar uma possível correlação entre a ventania e o super El Niño.
O caminho para a resiliência climática no Rio
O episódio reforça a importância de planos estratégicos para adaptação climática na Região Metropolitana do Rio de Janeiro, unificando esforços entre municípios e setores para mitigar riscos e proteger a população. A preparação para eventos extremos é fundamental para garantir segurança e infraestrutura resiliente diante das mudanças climáticas que se intensificam na cidade e arredores.

