Reconhecimento histórico para o Quilombo Ferreira Diniz
O Quilombo Ferreira Diniz, situado no bairro da Glória, em Janeiro (RJ), acaba de ser o primeiro quilombo do estado do Rio de Janeiro a receber tombamento oficial pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). A Portaria nº 135/2023 formaliza essa proteção, anunciada durante a 114ª Reunião do Conselho Consultivo do Patrimônio Cultural, que inscreveu o quilombo no Livro do Tombo de Documentos e Sítios Detentores de Reminiscências Históricas de Antigos Quilombos. Esse registro reforça a importância dos bens culturais ligados à trajetória das comunidades quilombolas no país.
Um território de memórias e resistência
Mais do que um local de habitação, o Quilombo Ferreira Diniz é um espaço vital de memória, convivência e passagem de saberes. A comunidade, formada por cerca de 70 descendentes das famílias Ferreira e Diniz, preserva tradições e práticas que afirmam a identidade afro-brasileira. A história do quilombo começa na década de 1950, quando Maria Isabel Ferreira, descendente de africanos escravizados, e seu marido, Antônio Dias Pessanha, estabeleceram-se no local, dando início a uma construção territorial que atravessa gerações.
O território mantém características que remetem a um quilombo rural, mesmo estando no coração da cidade. No seu quintal, crianças jogam futebol, moradores praticam capoeira e celebram eventos culturais, sob a sombra de árvores frutíferas que compõem o cenário. Um casarão neoclássico, típico das moradias luxuosas do início do século 20, integra o espaço e abriga atividades que reforçam a história comunitária.
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Cultura viva fortalece os vínculos sociais
Atividades culturais e esportivas são parte do cotidiano da comunidade. A Fundação Internacional de Capoeira Angola no Rio de Janeiro e o Instituto Aluandê Capoeira Angola promovem oficinas que conectam moradores à história e ao audiovisual, enquanto o time de futebol B20 FC aproxima crianças e jovens por meio do esporte. As confraternizações regulares reúnem moradores, familiares e amigos, perpetuando tradições e fortalecendo os laços locais.
A culinária também exerce papel fundamental na preservação da identidade. Todas as sextas-feiras, Aparecida Ferreira, conhecida como Tia Cida, prepara uma feijoada tradicional acompanhada por rodas de samba. Criada em 2023 para ajudar nas despesas, essa iniciativa virou fonte de renda e, ao mesmo tempo, um convite para visitantes conhecerem o quilombo.
Perspectivas e reconhecimento nacional
Durante a reunião do Conselho Consultivo, Érida Ferreira, presidente da Associação da Comunidade do Quilombo Urbano Ferreira Diniz, ressaltou a importância do tombamento. O Ferreira Diniz é o segundo quilombo do Brasil a ser oficialmente tombado e o primeiro em contexto urbano, destacando a comunidade no debate sobre a preservação dos territórios quilombolas.
Para Érida, o tombamento simboliza um compromisso com a garantia dos direitos das comunidades e representa um novo começo que reconhece os quilombolas como um futuro ancestral e possível.

