Primeiros passos para revitalizar a Pequena África
O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e a Prefeitura do Rio de Janeiro deram um importante passo na consolidação do Distrito Cultural Pequena África. No dia 21 de outubro, foram anunciadas ações que incluem a requalificação da Praça dos Estivadores e parcerias para a criação do Conservatório da Música Preta Brasileira, da Biblioteca Machado de Assis e da Fábrica. Com um investimento inicial estimado em R$ 23 milhões, oriundos de recursos públicos e privados, o projeto integra a Iniciativa Valongo, uma ampla proposta de requalificação urbana e cultural apoiada tecnicamente pelo Consórcio Valongo Patrimônio Vivo.
Importância histórica e cultural do projeto
Para o prefeito Eduardo Cavaliere, o Distrito Cultural Pequena África não é só uma questão de memória, mas um olhar voltado para o futuro da cidade e do país. “Cada espaço desse projeto, do Conservatório de Música Preta à Biblioteca Machado de Assis, faz parte dessa construção”, afirmou durante o evento no Museu da História e da Cultura Afro-Brasileira (MUHCAB), localizado na Gamboa.
Tereza Campello, diretora socioambiental do BNDES, reforçou que a iniciativa ultrapassa a recuperação física, investindo na preservação da memória e do patrimônio imaterial local. “Escolhemos um caminho que valoriza o território e as pessoas que mantêm viva sua história e cultura”, destacou, apontando para a importância da escuta e participação coletiva para a sustentabilidade do projeto.
Requalificação da Praça dos Estivadores
A Prefeitura do Rio destinará R$ 2 milhões para transformar a Praça dos Estivadores em um espaço mais acolhedor e funcional para moradores, trabalhadores e visitantes. O projeto prevê jardins, bancos, áreas de sombra e iluminação qualificada que ampliem o conforto e a segurança, especialmente para o uso noturno. A prioridade para pedestres será reforçada nas conexões com o entorno.
Mais que um espaço de convivência, a praça ganhará um papel ativo na cultura local, recebendo apresentações artísticas, rodas de conversa, feiras e atividades educativas. Um sistema de interpretação territorial com totens explicará a história da praça, dos estivadores e da formação afro-brasileira da região, fortalecendo a memória presente no espaço.
Essas intervenções foram construídas a partir de um processo de escuta com moradores, instituições e agentes culturais, que apontaram demandas como mais sombra, áreas de permanência e valorização da memória negra. A proximidade da praça com o Afoxé Filhos de Gandhi, a Casa Tia Ciata e os Jardins Suspensos do Valongo reforça sua integração com pontos culturais relevantes da Pequena África.
Parcerias para equipamentos culturais
Além da requalificação urbana, o BNDES firmou acordos para implementar três equipamentos culturais fundamentais. Com investimento previsto de R$ 8 milhões, a Biblioteca Machado de Assis será instalada em imóvel da Fundação Biblioteca Nacional, valorizando a literatura afro-brasileira e a memória oral, com espaços para exposições, acervo, auditório e terraço com jardim e café.
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Também com previsão de R$ 8 milhões em investimentos, o Conservatório da Música Preta Brasileira será construído em terreno cedido pela Prefeitura na região do Largo da Prainha. O conservatório atuará na formação, ensaios, produção e registro musical, promovendo a valorização dos saberes ligados à música negra como patrimônio e linguagem contemporânea, reunindo escola, palco, estúdio, mirante e praça.
Outro acordo com a Fundação Darcy Vargas prevê R$ 5 milhões para a criação da Fábrica, espaço dedicado à capacitação, apoio técnico e comercialização para produtores locais, com foco na economia solidária negra e produtos afrocentrados. Esse equipamento também apoiará negócios ligados à identidade cultural do território.
Histórico e contexto do Distrito Cultural
O Distrito Cultural Pequena África é uma das iniciativas mais abrangentes do país para valorizar a memória negra e promover a requalificação urbana em um território fundamental para a formação histórica do Rio de Janeiro e do Brasil. O projeto se baseia no conceito de museu de território, organizando o espaço urbano como uma rede viva de memória, cultura e produção contemporânea, construída em diálogo constante com moradores, pesquisadores e agentes culturais.
A formulação do projeto seguiu um processo intenso de escuta e participação, envolvendo oficinas, fóruns e grupos de discussão com moradores, lideranças e instituições. Pesquisa qualitativa e quantitativa, concurso de ideias para arquitetos negros e visitas técnicas a experiências em outras cidades subsidiaram as diretrizes que orientam o trabalho.
Entre as propostas estão a criação de equipamentos culturais que atuam nos pilares de guarda, formação, difusão e produção. O Centro de Interpretação e Museu Vivo da Pequena África, associado ao edifício Docas e ao Cais do Valongo, será um espaço dedicado à memória, educação e cultura, com exposições sobre a diáspora africana, escravidão, resistências negras e formação do território, além de áreas para pesquisa e atividades abertas.
Planejamento urbano e social integrado
O plano do Distrito Cultural contempla também intervenções urbanísticas na Rua Camerino, Praça da Harmonia, Rua e Ladeira do Livramento e Promenade do Valongo. Propõe melhorias na arborização, mobilidade ativa, espaços de convivência e circuitos culturais. Algumas ideias, como habitação social na região da Pedreira, ainda estão em discussão e poderão avançar conforme diálogo com a Prefeitura e a comunidade.
O projeto vai além de obras físicas. Busca fortalecer as instituições locais, apoiando projetos de adequação, restauração e organização comunitária, como no caso do Afoxé Filhos de Gandhi e do Instituto Pretos Novos. O objetivo é potencializar a voz da comunidade e garantir a sustentabilidade cultural e socioeconômica da região.
Pequena África: território de memória e resistência
O significado do Distrito Cultural Pequena África só pode ser compreendido a partir da história do território. Esse espaço é um dos mais relevantes para a memória afro-brasileira nas Américas, marcado pela escravidão e, sobretudo, pela resistência negra, religiosidade, trabalho e cultura popular.
O Cais do Valongo, reconhecido pela Unesco como Patrimônio Mundial, foi o principal porto de entrada de africanos escravizados no Brasil, com estimativas de até um milhão de pessoas entre 1774 e 1831. Contudo, a região também é memória viva das redes de solidariedade, das manifestações religiosas e das expressões culturais que moldaram a identidade do Rio e do país.
Ícones como Tia Ciata, João Alabá e Hilário Jovino, além de espaços como Pedra do Sal, Casa Tia Ciata e Instituto dos Pretos Novos, formam o mosaico que mantém viva essa história. O samba, o Carnaval e outras manifestações musicais e religiosas nasceram e floresceram nesse território, demonstrando a força da presença negra na cultura carioca.
A Praça dos Estivadores como elo entre passado e presente
A Praça dos Estivadores, com seu nome que lembra o trabalho portuário, foi palco de diferentes fases da história urbana, incluindo períodos em que foi conhecida como Largo da Imperatriz e Largo da Redenção. A requalificação quer evidenciar essas camadas históricas sem transformar a praça em um memorial exclusivo, mas sim em um espaço vivo de passagem, encontro e cultura.
O projeto visa criar condições para que a identidade cultural local permaneça e se conecte a novas possibilidades de desenvolvimento. A revitalização da praça é o primeiro passo concreto nesse esforço, abrindo caminho para que outras ações do Distrito Cultural Pequena África avancem, promovendo circulação, diálogo e fortalecimento da cena cultural do Rio de Janeiro.

