Pacientes do SUS Enfrentam Novas Dificuldades em Muçum
Pacientes do Sistema Único de Saúde (SUS) na cidade de Muçum, localizada no Vale do Taquari, estão sendo orientados a realizar o pagamento por exames em clínicas conveniadas como uma forma de evitar longas esperas na rede pública. A Secretaria da Saúde do Estado do Rio Grande do Sul iniciou uma investigação para apurar possíveis irregularidades no encaminhamento feito pelo posto de saúde local.
Na unidade de saúde, os pacientes são informados de que, para não aguardar anos na fila do SUS, é necessário arcar com parte dos custos dos exames diretamente em clínicas conveniadas. Essa prática levanta preocupações sobre a acessibilidade e os princípios que regem o SUS, que preveem atendimento gratuito à população.
Marília Zenatti, uma das pacientes que se viu nessa situação, é autista e enfrenta dificuldades alimentares. Após ser atendida no posto, a família recebeu a orientação de que ela necessitava de uma endoscopia, que custaria R$ 500. Conforme relato de sua mãe, Cecília Zenatti, dona de casa, a alternativa apresentada para evitar a longa espera era pagar pelo exame. “Demora dois, três anos… Vai até cinco anos”, afirmou.
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Além da endoscopia, Marília também foi orientada a realizar um ecocardiograma, custando R$ 35, e uma ultrassonografia, no valor de R$ 180. Somando os custos, o total representa aproximadamente um terço do benefício que Marília recebe do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS).
A família enfrenta dificuldades financeiras desde que a casa foi danificada por uma enchente, vivendo atualmente de aluguel. Além de Marília, Cecília também cuida da neta e de outro filho que é autista. “Como ela não tem dinheiro, tem que tirar da comida para poder fazer”, relatou a mãe, expressando a angústia da situação.
Práticas Controversas e Investigação da Secretaria da Saúde
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Em visita ao posto de saúde de Muçum, a reportagem confirmou que os pacientes recebem informações sobre a necessidade de pagamento para evitar longas filas. Uma funcionária informou que o valor deve ser pago diretamente à clínica conveniada, criando uma nova camada de custo para os usuários do SUS.
De acordo com informações da Secretaria da Saúde do Estado, sem o pagamento, os processos tornam-se mais demorados, pois o paciente deve enfrentar duas filas: uma para a consulta e outra para o exame. Dados obtidos pela RBS TV, através da Lei de Acesso à Informação, apontam que a espera média para consultas relacionadas a esses tratamentos pode alcançar até 759 dias, um prazo extremamente longo que compromete a saúde dos pacientes.
Em nota, a Secretaria da Saúde do Estado ressaltou que tomará as devidas providências para apurar os fatos. A secretaria enfatizou que qualquer cobrança vinculada ao encaminhamento de exames é incompatível com os princípios básicos do SUS.
A Prefeitura de Muçum, por sua vez, defendeu que o convênio com prestadores de serviços para realização de exames com desconto foi a solução encontrada para lidar com as filas extensas. O prefeito Amarildo Baldasso afirmou que a decisão de pagar pelo exame é uma escolha do paciente: “Se o paciente resolver assim: ‘Bom, eu não quero esperar na fila SUS’, aí é opção dele, né? Não somos nós que vamos dizer”, comentou, ao mesmo tempo em que destacou que a pessoa continua a ter a opção de aguardar na fila do SUS.
A reportagem ainda solicitou dados sobre a fila de exames à Secretaria Estadual da Saúde, mas o pedido foi negado. A justificativa apresentada foi de que as informações não estão sistematizadas e exigiriam trabalhos adicionais para análise e consolidação.
Enquanto isso, a situação em Muçum reflete um dilema enfrentado por muitos brasileiros que dependem do SUS, destacando a necessidade de um sistema de saúde mais eficiente e acessível para todos.

