Um novo capítulo no cenário político do Rio de Janeiro
O Rio de Janeiro tem enfrentado uma sequência preocupante nos últimos anos: seus sete últimos governadores eleitos democraticamente foram afastados do cargo em decorrência de denúncias e investigações relacionadas à corrupção. A lista inclui nomes como Moreira Franco, Anthony Garotinho, Rosinha Garotinho, Sérgio Cabral, Pezão, Wilson Witzel e Cláudio Castro, que renunciou para evitar a cassação e os efeitos da Lei da Ficha Limpa. A única exceção nessa série foi Benedita da Silva (PT-RJ), que assumiu o governo em 2002 por cerca de nove meses, após a saída de Garotinho.
Contexto atual e a intervenção do Judiciário
No mandato vigente, o vice-governador de Cláudio Castro não pôde assumir o governo, pois havia deixado o cargo para se tornar conselheiro do Tribunal de Contas do Estado do Rio de Janeiro (TCE-RJ). Além disso, o presidente da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj) foi preso por corrupção, criando um vácuo de liderança. Diante disso, o desembargador Ricardo Couto, presidente do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro (TJ-RJ), assumiu a função de governador conforme previsto na Constituição Federal.
Essa mudança marca uma nova etapa para o estado, que passa por uma devassa sem precedentes na administração pública estadual. Com uma postura independente, sem vínculos políticos ou eleitorais, o desembargador tem adotado uma linha rigorosa de austeridade e moralização na gestão pública.
Auditorias revelam problemas graves na administração estadual
Uma auditoria conjunta da Controladoria Geral do Estado e do Gabinete de Segurança Institucional revelou uma situação preocupante: até 80% dos funcionários em algumas secretarias estaduais eram considerados fantasmas, especialmente lotados em gabinetes do Palácio Guanabara. Muitos eram admitidos para cargos de confiança, contrariando a regra constitucional que determina a contratação mediante concurso público.
Leia também: Eleições 2026: Conheça os Potenciais Candidatos ao Governo do Rio de Janeiro
Leia também: Os Nove Pré-Candidatos ao Governo do Rio de Janeiro em 2026
Os números são alarmantes: 78% dos comissionados da Secretaria de Trabalho e Renda não exerciam suas funções; na Secretaria de Esporte e Lazer, 75% eram fantasmas; e no Turismo, 73% dos funcionários recebiam sem trabalhar. Outras pastas também registraram altos índices, como Ciência e Tecnologia e Agricultura, ambas com 65%, Assistência Social com 59% e Casa Civil com 58%. Até mesmo a Secretaria Estadual de Saúde teve 46% de seus funcionários exonerados por suspeitas similares.
Para identificar esses casos, os auditores cruzaram dados de acesso aos sistemas eletrônicos e registros de presença física. Funcionários sem qualquer registro foram considerados fantasmas e exonerados. Desde 24 de março, mais de 4 mil comissionados foram demitidos, o que deverá gerar uma economia de cerca de R$ 230 milhões até o final do ano.
Casos de corrupção eleitoral e desafios nas próximas eleições
O Rio de Janeiro também esteve no centro das investigações envolvendo práticas de rachadinha no gabinete do então deputado estadual Flávio Bolsonaro, em parceria com seu ex-chefe de gabinete Fabrício Queiroz. Durante essas apurações, surgiram suspeitas de lavagem de dinheiro por meio de uma chocolateria de propriedade de Flávio, que apresentava movimentação atípica em períodos como Páscoa e Natal.
Além disso, o aumento expressivo da corrupção eleitoral no país tem sido evidenciado pelo volume de dinheiro apreendido nas eleições municipais de 2024, que foi 14 vezes maior que em 2020. No Rio, a situação ganha contornos ainda mais preocupantes. O grupo de advogados “Congresso Novo pro Povo” protocolou no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e no Conselho Nacional de Justiça (CNJ) uma proposta para a utilização de câmeras corporais por mesários nas eleições de 2026, visando coibir fraudes na compra de votos.
Leia também: Niterói intensifica fiscalização e demolições para conter ocupações irregulares em áreas verdes
Leia também: Presença de Natal no Rio de Janeiro: Homenagem Cultural e Destaques do Cinema de 1962
O relato que motivou essa iniciativa aponta para um esquema em que eleitores são transportados até os locais de votação e depois para outro endereço, onde gravam vídeos comprovando o voto no candidato indicado. Após essa comprovação, eles receberiam pagamentos de R$ 100 a R$ 300. O esquema envolveria políticos aliados a policiais e grupos armados que controlam territórios marcados pela vulnerabilidade social e violência.
Resistência política e perspectivas para o futuro
Esses fatos explicam a resistência do campo político à permanência do desembargador Ricardo Couto no governo do estado. O Supremo Tribunal Federal (STF) foi acionado e determinou que ele permaneça no cargo enquanto analisa o formato das próximas eleições no Rio, caso que ainda está suspenso. Essa decisão representa uma luz no fim do túnel para o estado, que busca retomar a credibilidade e a ética na política.
O desafio agora é que a atual gestão consiga avançar na moralização da administração pública, inspirando eleitores e candidatos a escolherem caminhos republicanos nas eleições de outubro. A continuidade dessa cruzada pode significar a mudança necessária para que o Rio de Janeiro supere anos de instabilidade e corrupção.

