Avisos e Riscos: A Situação do Chorume no Rio de Janeiro
O deputado estadual Renato Machado (PT), que ocupa a vice-presidência da Comissão de Saneamento da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, anunciou a intenção de instaurar uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para apurar a falta de tratamento do chorume proveniente de lixões e aterros sanitários. Essa iniciativa surge em meio a uma audiência que reuniu representantes de universidades, organizações do terceiro setor e pescadores, onde foram discutidos os efeitos prejudiciais do chorume — um poluente gerado pela decomposição de resíduos sólidos — na saúde da população e na biodiversidade local.
Machado enfatizou a gravidade da situação: “Vamos propor a abertura de uma CPI para investigar o assunto. A falta de tratamento do chorume é uma questão muito séria de saúde coletiva.” A audiência, que contou com a presença de Sinval Andrade, diretor da empresa Águas do Rio, também trouxe relatos de pescadores sobre os riscos enfrentados por aqueles que dependem da pesca na Baía de Guanabara.
A pescadora Aline da Silva Santos expressou sua indignação: “Em Itaoca (São Gonçalo), o lixão foi fechado em 2012, mas o chorume continua a contaminar nossas águas de poço. Crianças estão morrendo e as pessoas vivem em extrema precariedade.” Sua declaração retrata a realidade alarmante de uma comunidade que sofre com a contaminação.
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Tratamento do Chorume: Uma Solução Longe do Ideal
Atualmente, o chorume proveniente do aterro sanitário de Seropédica, que recebe resíduos da capital e de áreas metropolitanas, é direcionado à Estação de Tratamento de Esgotos (ETE) de Alegria, localizada no Caju. No entanto, esse método é considerado inadequado. O professor Paulo Celso dos Reis, da Universidade de Brasília e ex-secretário de Meio Ambiente do Distrito Federal, alertou para as limitações dos sistemas de “lodos ativos” empregados na estação, que não são suficientes para tratar o chorume, um poluente com características muito mais complexas do que os efluentes domésticos.
“Embora o chorume seja diluído no esgoto, não existem estudos conclusivos sobre os impactos deste efluente na saúde humana. O chorume contém microplásticos, substâncias cancerígenas e teratogênicas. Compará-lo ao esgoto sanitário é um erro grave”, destacou o especialista durante a audiência.
Alternativas Tecnológicas para o Tratamento do Chorume
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Especialistas apontam que já existem tecnologias eficazes disponíveis para o tratamento adequado do chorume, evitando assim a sobrecarga das estações de esgoto convencionais. Algumas das principais alternativas incluem:
- Osmose reversa;
- Evaporação forçada;
- Processos oxidativos avançados (como ozônio, peróxido e radiação UV);
- Biorreatores anaeróbios e aeróbios específicos;
- Wetlands construídos (zonas alagadas artificiais).
Os especialistas sugerem que a combinação dessas tecnologias em sistemas integrados, dentro dos próprios aterros sanitários, representa o modelo mais seguro e eficaz, já em uso em vários países.
Revisão da Resolução Conama 430: Um Debate Necessário
Thaianne Henriques, secretária de Qualidade Ambiental do Ministério do Meio Ambiente, defendeu a necessidade de revisar a Resolução Conama 430, que estabelece diretrizes e padrões para o lançamento de efluentes no meio ambiente. Ela ressaltou que há uma disputa de interesses nesse processo de revisão. Enquanto setores industriais pressionam pela flexibilização das normas, especialistas e ambientalistas clamam por um endurecimento dos critérios, com a adição de novos parâmetros e rigor no controle dos poluentes.
No estado do Rio de Janeiro, a Lei nº 9.055, de 8 de outubro de 2020, proíbe o tratamento de chorume bruto em Estações de Tratamento de Esgoto (ETEs) convencionais. Contudo, a realidade é que poucos aterros realizam o tratamento adequado desse contaminante em suas instalações, o que agrava os riscos ambientais e para a saúde pública.

