A Verdadeira Identidade Racial no Brasil
De acordo com o Estatuto da Igualdade Racial, a definição de negro abrange duas categorias: pretos e pardos. Em seu novo livro, “Raça Social”, a educadora baiana Bárbara Carine investiga a autonomia do termo “pardo” na formação da identidade racial. Em uma entrevista, Carine destaca que, no Brasil, a raça é uma construção social e estética, comparando-a a uma estampa que define a aparência de uma pessoa.
“A raça no Brasil é considerada social, estética. Ela funciona como uma estampa”, afirma a autora, que discute a interpretação do termo “pardo” como uma categoria distinta da população negra. Essa interpretação, segundo Carine, não apenas fragmenta a luta racial, mas também pode gerar consequências significativas nas políticas públicas.
Os Riscos nas Políticas de Cotas
Um dos principais tópicos abordados por Carine refere-se às políticas de cotas, que são instrumentos vitais para promover a equidade em ambientes acadêmicos e profissionais. A educadora adverte que o uso indevido do termo “pardo” pode enfraquecer essas políticas. “A partir do momento em que as pessoas querem sequestrar o termo ‘pardo’ e continuar se beneficiando das políticas públicas, elas estão corrompendo essa ferramenta”, explica.
Carine, que já fez parte de comissões de heteroidentificação, ressalta a importância de critérios de avaliação mais rigorosos para candidatos que buscam cotas raciais em concursos e universidades. “As tentativas repetidas de fraude nas políticas afirmativas evidenciam a necessidade de aprimorar os critérios de avaliação”, afirma.
Iniciativas Educacionais e Reconhecimento Cultural
A educadora, que idealizou o Colégio Maria Felipa — a primeira escola afro-brasileira registrada pelo MEC, com unidades em Salvador e Rio de Janeiro —, também foi laureada com o prêmio Jabuti de educação em 2024 pela obra “Como Ser um Educador Antirracista”. Em “Raça Social”, Carine se inspira no crescente debate sobre a “parditude”, que ganhou destaque nas redes sociais e defende o reconhecimento da identidade parda como um grupo étnico-racial específico, vinculado à miscigenação.
Uma pesquisa realizada pelo Datafolha em 2024 revelou que 60% dos brasileiros que se consideram pardos não se identificam como negros. Essa questão é ainda mais complexa quando se leva em conta as conotações do termo pardo em relação a pessoas de descendência indígena. Na obra, Carine argumenta que a criação da categoria de mestiços pode reduzir a representação estatística de povos indígenas, que atualmente constituem apenas 0,8% da população brasileira.
Reconhecimento dos Mestiços e Suas Identidades
Estados como Amazonas, Mato Grosso, Paraíba e Roraima já reconhecem os mestiços como um grupo étnico-racial autônomo e estabeleceram o “Dia do Mestiço” em 27 de junho, por meio de legislação própria. A autora enfatiza que, considerando que muitos brasileiros se identificam como mestiços, essa categorização é crucial para a construção de uma identidade mais inclusiva.
Carine defende que a identidade racial não deve ser reduzida apenas à miscigenação, o que pode levar à exclusão de negros e indígenas. Para pessoas que adotam essa visão, ela introduz o conceito de “neopardos”, ou novos pardos, que buscam se distanciar do termo negro, mantendo certos privilégios.
Um Caminho de Coletividade e Respeito Histórico
Em seu livro, Carine propõe alternativas para evitar o esvaziamento das discussões raciais. Ela insiste que o debate sobre identidade deve ser conduzido de forma impessoal e precisa respeitar as conquistas históricas dos movimentos negros organizados. A obra refuta a fragmentação das terminologias como solução para enfrentar o racismo sistêmico, destacando que essa é uma responsabilidade coletiva de todos os cidadãos, negros e não negros, na busca pela construção de uma sociedade mais justa.

