Desafios do TSE e suas consequências políticas
A lentidão do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) em processar julgamentos de cassações tem gerado um ambiente de incerteza na política brasileira. Desde o início do ano, o TSE viu sua análise sobre esses casos ser interrompida por três pedidos de vistas. Primeiro, o ministro André Mendonça solicitou uma pausa em agosto; em novembro, o ministro Kássio Nunes Marques fez o mesmo; e, mais recentemente, a ministra Estela Aranha também pediu mais tempo para se debruçar sobre as questões.
Essa morosidade, conforme aponta o professor de Direito Eleitoral da Fundação Getúlio Vargas, Fernando Neisser, já ultrapassou um limite aceitável. Ele argumenta que o TSE não tem priorizado o andamento ágil dos processos, o que levanta preocupações quanto à legitimidade das votações populares.
“Claro que cassar um governador é uma decisão delicada. É fundamental ter provas robustas para tal medida, mas isso não pode resultar em um cenário em que um político complete quase todo o seu mandato, apenas para ser afastado nos últimos meses”, disse Neisser, ressaltando a necessidade de eficiência nas decisões do TSE.
Casos históricos que se repetem
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Nos últimos anos, episódios semelhantes ocorreram em outros estados. Um exemplo emblemático foi o Amazonas, onde o ex-governador José Melo e seu vice, Henrique Oliveira, foram cassados em 2017 por compra de votos durante a campanha de 2014. A cassação deles resultou numa eleição suplementar, vencida pelo ex-governador Amazonino Mendes, que ocupou a cadeira até o final de 2018.
Outra situação semelhante ocorreu no Tocantins, onde Marcelo Miranda e Cláudia Lelis tiveram seus mandatos cassados em 2018, também por abuso de poder econômico em relação às eleições de 2014. A nova eleição foi vencida por Mauro Carlesse, que acabou reeleito após ocupar o cargo por um breve período.
O caso do Rio de Janeiro e suas repercussões
No Rio de Janeiro, a incerteza sobre a liderança do estado se intensificou devido aos desdobramentos da cassação do ex-governador Cláudio Castro. Ele foi implicado em um escândalo relacionado à Fundação Ceperj durante a campanha de 2022. Após ser absolvido pelo Tribunal Regional Eleitoral do estado, sua situação foi levada ao TSE em novembro do ano passado, mas logo teve a análise interrompida por um pedido de vista do ministro Antonio Carlos.
O julgamento foi retomado em março deste ano, mas novamente paralisado por Nunes Marques. Quinze dias depois, as acusações foram analisadas pelo plenário, no dia seguinte à renúncia de Castro, que deixou o cargo para concorrer ao Senado. Essa saída gerou um vácuo no comando do Executivo, uma vez que o ex-vice-governador Thiago Pampolha também abandonou seu posto para uma vaga no Tribunal de Contas do estado. Rodrigo Bacellar, presidente da Assembleia Legislativa, foi cassado junto com Castro, complicando ainda mais a situação.
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Essas reviravoltas levaram o PSD a protocolar um pedido no Supremo Tribunal Federal (STF) para a realização de eleições diretas, desafiando a Constituição estadual que prevê eleições indiretas nesse contexto.
A urgência de se resolver a questão
Ao chegar ao STF, o caso foi analisado em 8 de abril, mas novamente interrompido por um pedido de vista do ministro Flávio Dino, que destacou a necessidade de aguardar a divulgação do acórdão que condenou Castro. A publicação ocorreu na semana passada, mas o caso ainda não foi devolvido para julgamento.
Durante a análise no plenário, o ministro Gilmar Mendes destacou a morosidade da Justiça Eleitoral, descrevendo-a como uma “joia da República” e criticando a lentidão no processo. Além disso, a advogada Clarrissa Fonseca Maia, membro da Academia Brasileira de Direito Eleitoral e Político, também expressou seu descontentamento. Ela argumentou que a Justiça possui mecanismos que deveriam ser utilizados para acelerar a análise dos casos.
Para Clarrissa, não há justificativa para tanta demora, especialmente em comparação com a Justiça comum. “Estamos lidando com uma estrutura que permite processos mais rápidos, e isso deveria ser aproveitado”, afirmou.
A influência na credibilidade das instituições
A extensão dos prazos para a decisão sobre cassações reflete diretamente na percepção da população sobre a efetividade do TSE. O advogado especializado em Direito Eleitoral e criador da Lei da Ficha Limpa, ressaltou que a questão é de extrema relevância. “Estamos falando de mandatos que têm grande importância, como o de um governador. Não podemos deixar que uma pessoa, anos depois, seja vista como usurpadora de um cargo público”, alertou.
Essa situação, segundo ele, gera um impacto significativo na credibilidade das instituições e, consequentemente, afeta os eleitores que ficam inseguros quanto à legitimidade dos mandatos e das eleições. A falta de clareza sobre a situação dos governantes pode comprometer a confiança da população nas instituições democráticas.

