Contexto da Carência de Professores na Rede Estadual do Rio de Janeiro
Uma pesquisa recente sobre o trabalho docente na rede pública estadual do Rio de Janeiro aponta peculiaridades importantes no cenário da contratação de professores para o Ensino Médio. Diferente da tendência nacional e regional, o estado apresenta um baixo percentual de professores temporários atuando nas escolas estaduais. Enquanto no Brasil e na Região Sudeste a contratação temporária atinge cerca de 43% a 46%, no Rio de Janeiro esse índice é de apenas 6,2%, com quase 94% de professores contratados de forma efetiva.
Essa baixa presença de temporários, no entanto, contrasta com os dados sobre a carência real de professores por disciplinas, divulgados pela Secretaria Estadual de Educação do Rio de Janeiro (SEEDUC-RJ) em 2023. Em 2022, a demanda por professores em várias áreas do Ensino Médio mostrou-se expressiva, com um total de 20.077 tempos de aula vagos, somando carência real e temporária. Disciplinas como Filosofia, Matemática, Língua Estrangeira e Itinerário Formativo apresentaram déficits significativos, evidenciando um desafio estrutural para a rede.
Mecanismos para Enfrentar a Carência: Predominância da Hora-Extra
Para suprir essa lacuna, a SEEDUC-RJ tem recorrido a três principais estratégias: contratação temporária, mobilidade interna de professores e a ampliação da jornada de trabalho com pagamento de Gratificação por Lotação Prioritária (GLP), conhecida como hora-extra. No primeiro bimestre de 2022, foram autorizadas 15 mil GLPs e 2 mil contratos temporários para atender a toda a rede estadual, totalizando mais de 42 mil tempos de aula cobertos pela jornada ampliada.
O uso da GLP como principal instrumento para recomposição do quadro docente chama atenção por sua precariedade. Segundo o Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (DIEESE), mais de 25% dos professores efetivos da rede estadual estavam lecionando em hora-extra em setembro de 2023. Essa gratificação não é incorporada ao salário base, não gera direitos trabalhistas nem previdenciários, configurando um mecanismo que reduz custos para o estado, mas sobrecarrega os profissionais com jornadas extensas e remuneração inferior ao piso nacional proporcional.
Leia também: Rio de Janeiro Recebe Selo Ouro de Alfabetização: Um Marco na Educação
Leia também: Rio das Ostras Alcança Excelência na Alfabetização: 73% de Alunos Capacitados até 2025
Impactos Financeiros e Trabalhistas do Regime de Ampliação da Jornada
Financeiramente, entre janeiro e setembro de 2023, a SEEDUC destinou R$ 1,444 bilhão para salários de servidores estatutários, dos quais R$ 123,46 milhões foram gastos com GLP, representando cerca de 5,3% do total de despesas com vencimentos fixos. A remuneração da hora-extra é baseada no menor nível da carreira docente, tornando-se inferior ao salário habitual para professores em níveis maiores. Além disso, o pagamento ocorre sem adicionais, diferentemente do setor privado, que oferece pelo menos 50% a mais sobre a hora-aula.
O regime de GLP traz ainda restrições: professores podem ser excluídos da hora-extra em caso de faltas, afastamentos prolongados ou avaliações negativas, o que cria insegurança quanto à continuidade desse rendimento. A jornada máxima permitida, incluindo a GLP, é de 65 horas semanais, bem acima da discussão nacional sobre limitação para 40 horas semanais. Essa ampliação se traduz em uma intensificação do esforço docente, com horas trabalhadas muito acima da média regional e nacional.
Consequências para o Corpo Docente e a Estrutura Escolar
Outro efeito da atual política de contratação é o envelhecimento do quadro docente. A ausência de concursos públicos desde 2014 e o uso contínuo de contratos temporários impedem a renovação dos profissionais. Dados do último concurso para Professor Docente I em Geografia, realizado em 2014, mostram que 72,6% dos aprovados tinham menos de 35 anos, indicando um limite para a entrada de jovens na carreira. Entre 2015 e 2025, houve queda significativa no percentual de professores jovens nas faixas etárias até 34 anos, enquanto aumentaram as faixas acima de 40 anos, refletindo o envelhecimento da força de trabalho.
Esse quadro, aliado à precarização do regime de hora-extra, impacta diretamente a qualidade do ensino e as condições de trabalho. A dependência crescente da GLP, que reduz custos para o estado mas precariza os vínculos e remunerações, revela uma estratégia de liofilização da oferta docente – ou seja, uma ampliação do esforço do professorado sem a correspondente valorização ou estabilidade.
Leia também: Ranking de Alunos em Tempo Integral no Ensino Médio: Estados em Destaque
Leia também: Rio de Janeiro Registra Recorde de Aprovações no Sisu 2026 e Fica em 2º Lugar Nacional
Desafios e Perspectivas para a Rede Estadual do Rio de Janeiro
Até o momento, não há previsão para a realização de novos concursos públicos para professores na rede estadual fluminense, mesmo com a carência declarada pela SEEDUC-RJ e pelo Sindicato Estadual dos Profissionais da Educação do Rio de Janeiro (SEPE-RJ), que apontam necessidades entre 9.500 e 12 mil docentes. A continuidade desse cenário pode aprofundar a precarização do trabalho docente e comprometer a qualidade da educação oferecida aos estudantes do Ensino Médio.
Assim, o sistema enfrenta o desafio de equilibrar a necessidade urgente de suprimento das vagas com a valorização do profissional e a garantia de condições adequadas para o exercício do magistério. A discussão em torno da jornada de trabalho, remuneração justa e estabilidade ganha centralidade, sobretudo no contexto das políticas públicas educacionais que impactam diretamente a aprendizagem e o desenvolvimento dos estudantes.
Renato Silva escreve com clareza, contexto de política educacional e efeito concreto para estudantes, professores, escolas e universidades.

