Impactos do Machismo Estrutural no Brasil
No Brasil, a cada 24 horas, pelo menos 12 mulheres são agredidas, totalizando cerca de 4.558 vítimas de violência anualmente, conforme dados da Rede de Observatórios da Segurança. Esses números, coletados em nove estados — entre eles Amazonas, Bahia e São Paulo — refletem a gravidade do machismo estrutural, que, segundo especialistas, perpetua essa realidade alarmante. Em entrevista à Rádio Nacional, os especialistas enfatizam a urgência de envolver os homens na construção de soluções para combater a violência de gênero.
Uma pesquisa conduzida pela ONU Mulheres e pelo Instituto Papo de Homem revela que 81% dos homens e 95% das mulheres consideram o Brasil um país machista. O psicólogo Flávio Urra, que trabalha na reeducação de agressores, ressalta que, enquanto as mulheres têm avançado em suas pautas, muitos homens ainda mantêm uma mentalidade ultrapassada. “Muitos ainda anseiam por um modelo de família que não condiz com a realidade atual”, afirma.
Contudo, há exceções, como Carlos Augusto Carvalho, engenheiro de 55 anos, que reconhece que combater o machismo é uma tarefa contínua. “É um desafio diário. Precisamos levantar uma bandeira forte contra isso”, declara. A luta não deve ser apenas individual, mas também coletiva, envolvendo famílias e comunidades.
O Papel da Família na Formação das Masculinidades
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Para o psicólogo e terapeuta familiar Alexandre Coimbra Amaral, as dinâmicas familiares moldam a percepção de crianças e adolescentes sobre o mundo. Ele compara a família a um país, onde são aprendidos valores e comportamentos. “Quando a cultura familiar impõe um único padrão de masculinidade, perpetua-se uma mentalidade que pode favorecer a violência”, adverte.
Amaral argumenta que os homens devem questionar as tradições que herdaram e refletir sobre como essas práticas os prejudicaram. “É fundamental que se perguntem: quais as perdas que tive por ter aprendido a ser homem dessa maneira?”, sugere.
O educador parental Peu Fonseca propõe uma nova identidade coletiva, que deve afastar-se do que historicamente trouxe violência. “É essencial ensinar nossos meninos a valorizar e respeitar as meninas, não a vê-las como ameaças”, enfatiza. Ele acredita que o papel dos pais é acolher e orientar, permitindo que as crianças explorem o mundo de maneira saudável.
educação e a Luta Contra a Violência de Gênero
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O consultor Felipe Requião acredita que tanto a escola quanto a família devem ser protagonistas na formação de masculinidades, promovendo uma visão saudável e respeitosa. Ele menciona que a perpetuação de estereótipos prejudiciais, como “homem não chora” e “não cozinha”, deve ser combatida.
Ismael dos Anjos, jornalista e pesquisador em masculinidades, enfatiza que as novas gerações de meninas já entendem que podem ocupar qualquer espaço. Agora, é fundamental que os meninos também aprendam a cuidar de si e dos outros. “Atividades que promovam o cuidado e a empatia devem substituir brincadeiras que incentivam a violência”, sugere.
A Importância do Letramento de Gênero nas Escolas
Cerca de 70% dos professores já presenciaram situações de silenciamento e sexualização de meninas, de acordo com um estudo da ONG Serenas. A psicóloga Valeska Zanello destaca que a escola desempenha um papel crucial na promoção do letramento de gênero, uma vez que é um espaço onde os valores familiares podem ser ressignificados. “Se não abordarmos essas questões, as gerações seguirão reproduzindo ciclos de violência”, alerta.
A coordenadora-geral de Acompanhamento e Combate à Violência nas Escolas, Thaís Luz, reforça que a educação básica é um pilar fundamental para a transformação social. “Trabalhar temas como respeito e empatia é essencial para prevenir a violência, incluindo contra meninas e mulheres”, afirma.
Redes Sociais e o Machismo Online
Estudos indicam que discursos misóginos e machistas se proliferam nas redes sociais, com o crescimento de grupos que defendem a masculinidade tóxica. Uma pesquisa da Universidade Federal do Rio de Janeiro ressalta que 90% dos canais do YouTube com conteúdo misógino permanecem ativos. O psicólogo Alexandre Coimbra Amaral observa que as redes sociais têm um papel significativo na formação de opiniões, frequentemente promovendo conteúdos mais violentos.
Valeska Zanello também aponta que, embora a internet tenha aspectos negativos, pode ser uma ferramenta poderosa para a educação sobre gênero. Campanhas como o movimento #ElesPorElas buscam engajar homens na promoção da igualdade de gênero, mostrando que a luta contra o machismo deve ser coletiva e ativa.

