Contraste entre percepção e dados oficiais sobre furtos em Niterói
Nos últimos meses, comerciantes de Niterói têm registrado um aumento nos casos de furto a estabelecimentos, principalmente durante a madrugada, em bairros como Icaraí e no Centro da cidade. Enquanto as queixas ganham força e se espalham por redes sociais e grupos de mensagens, os números oficiais do Instituto de segurança pública (ISP) indicam uma variação discreta: foram 32 registros de furto a comércio entre janeiro e maio de 2025, contra 41 no mesmo período do ano anterior.
Subnotificação dificulta mapeamento real da criminalidade
Essa discrepância entre a percepção do setor produtivo e os dados oficiais acendeu um alerta entre especialistas e representantes comerciais, que apontam a subnotificação como um dos principais motivos para o cenário real estar distorcido. Em resposta, o Centro de Dirigentes Lojistas (CDL) de Niterói lançou uma campanha para incentivar os empresários a formalizar todas as ocorrências, mesmo aquelas com prejuízos financeiros considerados menores.
O conceito de “cifra oculta” da criminalidade, que se refere aos crimes não registrados oficialmente, foi tema da última reunião do Conselho Comunitário de Segurança (CCS) no início do mês, reforçando a importância da conscientização para o registro dos casos.
Polícia reforça importância do registro formal dos crimes
O comandante do 12º BPM (Niterói), coronel Júlio Cesar da Silva, destaca que a atuação policial depende do registro oficial para ser efetiva. Ele relata situações em que, mesmo com prisões em flagrante, as vítimas não formalizam a ocorrência na delegacia, dificultando o trabalho das autoridades.
“Sempre estimulamos as pessoas a informarem os casos, pois sem notificação, o trabalho fica baseado em achismos. Precisamos dessa conscientização para atuar com dados concretos”, afirma o comandante.
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Impacto das redes sociais na percepção de segurança
O presidente da CDL Niterói, Luiz Vieira, observa que muitos comerciantes deixam de registrar os furtos por considerarem o processo burocrático ou pouco eficaz, preferindo relatar os episódios nas redes sociais. Essa prática, segundo ele, pode criar uma sensação de insegurança maior do que a realidade.
Vieira defende que o registro online pode facilitar a formalização das ocorrências e proporcionar um retrato mais fiel da criminalidade na cidade. “Sem o registro oficial, não há como dimensionar o problema de verdade”, ressalta.
Casos recorrentes e prejuízos acumulados em Icaraí
Um exemplo recente é o comerciante Rogério Rossetti, dono de uma franquia de fast-food em Icaraí, que relata seis invasões desde dezembro de 2025, com prejuízos superiores a R$ 30 mil. Ele também possui uma loja de materiais de construção no mesmo bairro, alvo de furtos frequentes, o que o levou a decidir pela venda do ponto comercial. Os criminosos costumam levar fios elétricos, tubulações de cobre e equipamentos de ar-condicionado.
“Fica frustrante registrar e não ver resultado. Muitas vezes, só a repercussão na mídia gera algum impacto. Por que registrar se isso vira apenas estatística?”, desabafa o empresário.
Polícia Civil enfatiza o papel dos registros para investigações
Na 77ª DP (Icaraí), a investigadora Jéssica Peixoto reforça que o acompanhamento dos crimes depende da formalização das ocorrências, fundamental para identificar padrões e agir contra grupos criminosos.
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“Sem o registro, não conseguimos trabalhar. Muitas vezes, reconhecemos o modo de operação dos autores e identificamos a reiteração criminosa, o que auxilia em investigações mais complexas”, explica.
Subnotificação compromete combate efetivo à criminalidade
O investigador Lucas Brizola, da 76ª DP (Centro), destaca que a subnotificação é um fenômeno conhecido na criminologia e prejudica a compreensão do real tamanho da criminalidade no município.
“Crimes pequenos, mesmo assim, ajudam a identificar autores que cometem várias infrações. Sem registros, perdemos base para fundamentar prisões e demonstrar a contumácia dos suspeitos”, afirma.
Confiança nas instituições e influência na subnotificação
Luciano Avelar, chefe do Observatório de Segurança Pública de Niterói, pondera que o aumento dos registros pode indicar maior confiança da população nas instituições. Ele ressalta que pesquisas de vitimização são mais precisas para medir a subnotificação, que também varia conforme o tipo de crime e o valor do bem furtado.
“Nem sempre mais registros significam piora da criminalidade. Um veículo, por exemplo, quase sempre é registrado, enquanto outros crimes podem não ser formalizados”, destaca Avelar.

