STF e Operações Policiais Redefinem Disputa pelo Governo do Rio
Até dezembro passado, o grupo político ligado a Jair Bolsonaro (PL) mantinha um projeto sólido para permanecer no comando do governo do Estado do Rio de Janeiro, controlado pelo partido desde janeiro de 2019. Entretanto, operações policiais e decisões do Supremo Tribunal Federal (STF) impuseram mudanças substanciais nesse plano. Dois meses após a primeira decisão judicial que impactou o grupo, a possibilidade crescente de vitória do pré-candidato da oposição, o ex-prefeito do Rio Eduardo Paes (PSD), tem provocado a migração de aliados do então governador Cláudio Castro (PL), que renunciou ao cargo em 23 de março.
Alianças Políticas em Transformação Frente às Mudanças Institucionais
Um caso emblemático é o do prefeito de Paraíba do Sul, Júlio Canelinha (União), filiado a uma das legendas da coligação bolsonarista e aliado histórico do grupo. Canelinha recebeu convites tanto de Paes quanto de Douglas Ruas, candidato do PL, e optou por apoiar o ex-prefeito do Rio. Em encontro recente, presenteou Paes com uma camisa do Flamengo personalizada, gesto que, apesar do histórico rivalidade futebolística — Paes é vascaíno — simbolizou a nova aliança. Nas redes sociais, Canelinha ressaltou que sua prioridade é a cidade de Paraíba do Sul, afastando-se de motivações partidárias específicas.
Após a renúncia de Castro, o presidente do Tribunal de Justiça do Rio, desembargador Ricardo Couto, assumiu o governo estadual. Inicialmente, Couto declarou não estar preparado para o cargo e indicou que permaneceria por no máximo um mês. Porém, por determinação do STF, ele segue na função, tendo completado dois meses no último sábado (23). Durante esse período, desmontou grande parte da equipe nomeada por Castro, exonerando cerca de 2.700 servidores, sobretudo ocupantes de cargos comissionados e funções técnicas, com impacto significativo em diversas secretarias, especialmente na Agricultura, Pecuária e Abastecimento.
Disputa Judicial e Impasses na Sucessão Governamental
Cláudio Castro, reeleito em 2022, não poderia concorrer novamente ao governo e pretendia disputar o Senado em 2026, apoiando para governador Rodrigo Bacellar (União Brasil), eleito presidente da Assembleia Legislativa do Rio (Alerj) para mandato a partir de 2025. Contudo, Bacellar foi preso em dezembro de 2025 por suspeita de vazar informações sigilosas relacionadas a uma operação contra o Comando Vermelho, e, mesmo solto, perdeu as condições para disputar o governo.
Diante disso, o grupo bolsonarista indicou Douglas Ruas (PL), deputado estadual e filho do prefeito de São Gonçalo, Capitão Nelson (PL), como candidato a governador. O plano incluía eleger Ruas durante o mandato tampão, de abril a dezembro, para que ganhasse visibilidade e pudesse usar recursos da máquina pública, importante em campanhas eleitorais.
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A renúncia de Castro e a saída do vice-governador — que assumiu como conselheiro do Tribunal de Contas do Estado em maio de 2025 — geraram a necessidade de eleição para governador. A Constituição estadual prevê eleição indireta se a vaga ocorrer nos dois últimos anos do mandato, enquanto o Código Eleitoral determina eleição direta se a vacância ocorrer mais de seis meses antes do fim do mandato. Essa controvérsia foi levada ao STF, que, até o momento, não concluiu o julgamento, com o ministro Flávio Dino pedindo vista e prazo para análise até julho.
Movimentações na Assembleia Legislativa e Decisões do STF
A outra maneira para Ruas assumir o governo seria como presidente da Alerj, cargo que assumiria em ausência de governador e vice. Na renúncia de Castro, a presidência da Alerj estava ocupada por um interino, devido ao afastamento de Bacellar, que foi preso e posteriormente cassado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Com essa decisão, a vaga na presidência da Alerj ficou oficialmente aberta, e Ruas foi eleito para o cargo em 17 de abril.
Apesar da eleição de Ruas, o ministro do STF Cristiano Zanin determinou que o desembargador Ricardo Couto permaneça no governo do Rio, com base em decisão anterior do Supremo. Essa situação mantém o cenário de instabilidade e indefinição sobre a sucessão estadual.
Impactos Administrativos e Investigações em Curso
Durante sua gestão interina, Couto promoveu diversas exonerações, atingindo principalmente cargos comissionados indicados por aliados de Castro, o que gerou especulações sobre retaliações políticas. Entre os órgãos mais afetados está a Receita Estadual, que sofreu 40 exonerações em um só dia, coincidindo com uma operação da Polícia Federal contra Castro. O ex-governador é investigado por supostamente criar regras para beneficiar ilegalmente um empresário considerado o maior devedor de impostos do país.
Castro nega irregularidades e afirma ter agido dentro da legalidade. O governo atual ofereceu total colaboração à Polícia Federal, inclusive com lacragem de equipamentos para perícia. Até o momento, rumores sobre represálias envolvendo deputados estaduais e servidores da Alerj não se concretizaram.
Pesquisa Aponta Vantagem de Paes e Mudanças no Cenário Eleitoral
Uma pesquisa Quaest divulgada em 27 de abril, encomendada pela Genial Investimentos, apontou Eduardo Paes com entre 34% e 40% das intenções de voto no primeiro turno, contra 9% a 11% de Douglas Ruas. No segundo turno, Paes alcançava 49%, enquanto Ruas somava 16%. O levantamento ouviu 1.200 eleitores entre 21 e 25 de abril, com margem de erro de 3 pontos percentuais e nível de confiança de 95%, registrado no TSE sob o número RJ-00613/2026.
Apesar da predominância do PL, PP e União Brasil nas prefeituras do Estado, a vantagem de Paes nas pesquisas e a indefinição judicial sobre a eleição têm motivado ex-aliados a reverem posicionamentos, como o prefeito de Paraíba do Sul e a deputada estadual Carla Machado, que recentemente migrou para o PSD após romper com o grupo de Bacellar.
Próximos Movimentos Políticos e Institucionais
A indefinição sobre o modelo de eleição e a permanência do governador interino mantêm o cenário político fluminense em aberto. O desfecho no STF sobre a eleição direta ou indireta para governador deverá ser decisivo para a configuração final da disputa. Enquanto isso, a movimentação dos atores políticos e a condução administrativa do governo interino terão impacto direto na governabilidade e no equilíbrio institucional do estado até as eleições de 2026.

