Uma nova abordagem antirracista para a saúde nas favelas
Com o intuito de oferecer ferramentas eficazes no combate ao racismo em áreas urbanas vulneráveis, a Fiocruz, em parceria com o Movimento Negro Unificado do Rio de Janeiro (MNU-RJ), lançou uma cartilha voltada para a saúde antirracista. Este material, desenvolvido para moradoras, moradores e profissionais atuantes em favelas e periferias, traz orientações práticas e inclui análises de pesquisadores e especialistas das áreas de saúde, educação e segurança pública. A cartilha já está disponível para download.
O lançamento ocorreu durante um seminário no dia 18 de abril, que reuniu pesquisadores, profissionais de saúde e líderes comunitários no Instituto Social Acemades, localizado em Vicente de Carvalho, na zona Norte do Rio de Janeiro. O evento deu início com a exibição do documentário “Nzila: Favela, Ancestralidade e Saúde Antirracista”, que coloca a ancestralidade como pilar das lutas por dignidade nas favelas. “Nzila”, que significa “caminho” em Bantu, é um produto de divulgação científica que valoriza práticas sociais construídas a partir do conhecimento popular e da ciência, com foco em ações antirracistas.
Debates sobre saúde e racismo
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A mesa de debates contou com a participação de Heitor Silva, coordenador da Educação de Jovens e Adultos da Fiocruz; João Batista, professor de História e coordenador estadual do MNU-RJ; Miriam de Oliveira, psicóloga e promotora de saúde antirracista de Vila Aliança; e Vanda de Souza, coordenadora do MNU do Espírito Santo. Durante as discussões, Miriam de Oliveira ressaltou a necessidade de unir ações clínicas e políticas para promover a saúde antirracista, enfatizando que muitos moradores da favela experienciam a violência, mas nem sempre reconhecem sua dimensão racial. Ela destacou que, embora a favela enfrente silenciamentos, a intenção é “fazer barulho” e trazer essas questões à tona.
Vanda de Souza também comentou sobre a predominância de mulheres nas coordenações locais do projeto, ressaltando que a formação é uma ferramenta poderosa para que essas mulheres compreendam seus direitos e se fortaleçam diante das violências cotidianas. “O papel delas vai além do cuidado, é uma luta pela responsabilização coletiva”, afirmou Vanda.
Fortalecimento da luta antirracista nas favelas
João Batista Carvalho, em sua fala, lembrou que a favela é um espaço predominantemente negro e que é crucial incentivar a presença de iniciativas como pré-vestibulares e projetos sociais. “Devemos honrar aqueles que lutaram antes de nós. A luta pela saúde e pelos direitos é um legado que devemos continuar”, enfatizou o professor. O evento também ofereceu espaço para que o público compartilhasse suas experiências e perspectivas sobre a luta antirracista, reforçando a importância da troca de conhecimento e da coletividade.
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O seminário culminou com a apresentação do grupo Música na Calçada, composto por alunos da Escola de Música de Manguinhos, que trouxe um repertório recheado de canções populares e autorais. Ao final, a cartilha foi distribuída a todos os participantes.
Contexto desafiador para a implementação do projeto
O lançamento da cartilha “Saúde na Favela Numa Perspectiva Antirracista” é parte de um conjunto de ações que visam fortalecer a saúde nos territórios atendidos pelo projeto. Entretanto, o ano de 2025 trouxe desafios significativos com as operações policiais letais que afetaram o cotidiano das comunidades, ocasionando o fechamento de clínicas e interrupções de atividades escolares em áreas como Mangueirinha e Vila Cruzeiro. A operação policial mais letal do país, que aconteceu em outubro de 2025 no Complexo da Penha, teve um impacto profundo na saúde mental dos moradores.
Desenvolvida a partir da vivência nas sete favelas participantes — Manguinhos, Jacarezinho, Rocinha, Vila Cruzeiro, Cidade Alta, Mangueirinha e Vila Aliança —, a cartilha traz diagnósticos e destaca diferenças significativas na expectativa de vida. Enquanto cidadãos na Gávea vivem em média até os 80 anos, no Complexo do Alemão essa expectativa cai para cerca de 65 anos, evidenciando desigualdades estruturais que precisam ser abordadas.
Leonardo Brasil Bueno, coordenador do projeto na Fiocruz, ressaltou a importância de narrar as experiências e especificidades de cada território. “Esses lugares, embora distintos, compartilham desafios comuns, e essa cartilha é um reflexo das vozes dos moradores e dos profissionais envolvidos”, concluiu.
Com aproximadamente 80% dos usuários do Sistema Único de Saúde (SUS) se autodeclarando negros, a cartilha também aborda como o racismo institucional ainda impede o acesso equitativo aos serviços de saúde. O projeto busca formar promotores populares de saúde, que atuarão voluntariamente nas comunidades, promovendo solidariedade e um acesso mais amplo à informação e à defesa dos direitos de saúde.

