Centro do Rio em Foco na Semana de Moda e o Debate sobre Acesso
O centro do Rio de Janeiro voltou ao centro das discussões ao ser escolhido para sediar a primeira Semana de Moda do Rio, marcada para 2026. Entre os dias 14 e 18 de abril, a Rio Fashion Week trouxe à tona o protagonismo da região na produção cultural carioca, reunindo marcas brasileiras e promovendo parcerias com renomados restaurantes locais, além de exposições dedicadas à alta moda carnavalesca.
O evento tinha como objetivo ultrapassar os tradicionais desfiles de moda, buscando valorizar e internacionalizar a cultura brasileira, com ênfase na identidade carioca. Contudo, as restrições impostas durante a programação evidenciaram um conflito latente: a relação entre a popularização do centro do Rio e a gentrificação espacial, que acaba por reforçar a segregação social.
A Popularização e os Limites do Centro
Nos últimos anos, impulsionada pelas redes sociais, a região central do Rio tornou-se ponto de lazer para o público jovem, que busca vivenciar o estilo de vida carioca. Renato Sales, gerente de eventos da Destilaria Maravilha, localizada na Rua do Senado, ressalta que o centro é um espaço onde a boemia e a malandragem coexistem e se entrelaçam.
A escolha do centro para grandes eventos, como a Fashion Week, que firmou parcerias com bares e restaurantes tradicionais, reflete a intenção de reocupar um espaço cultural rico em histórias, antes abandonado. No entanto, a realidade do acesso a esses eventos revela limitações que reforçam a exclusão social. Shows gratuitos, porém com ingressos limitados e retirados pela internet, e estabelecimentos com preços elevados dificultam o acesso das populações de menor renda.
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Impactos da Gentrificação e a Exclusão Social
Leonardo de Oliveira, autônomo que expõe seus acessórios na Feira da Praça XV há quatro anos, percebe uma transformação no perfil dos frequentadores, que passaram de moradores locais para turistas ocasionais. Isso resulta no aumento dos preços e no distanciamento do público original, ilustrando como a fama não se traduz em inclusão.
Ele questiona se o lazer oferecido no centro realmente promove mudanças para todos, especialmente para as classes mais baixas, já que a falta de transporte e infraestrutura dificulta o acesso. Além disso, observa desigualdades no uso do espaço, com moradores do subúrbio saindo mais cedo devido à limitação dos horários de transporte público, enquanto frequentadores da Zona Sul desfrutam sem preocupações.
Histórico de Exclusão e Políticas Urbanas
A gentrificação, que eleva o valor dos imóveis e promove o deslocamento das populações de menor renda, está presente desde o século XIX no Rio. As favelas surgiram da expulsão de trabalhadores que construíram a cidade, mas foram impedidos de usufruir dela. No século XX, políticas higienistas expulsaram moradores do centro para o subúrbio, dificultando seu acesso aos espaços urbanos.
Mais recentemente, eventos como a Copa do Mundo de 2014 e as Olimpíadas de 2016 repetiram esse padrão, com remoções em massa e revitalizações que deslocaram milhares de famílias da região central. Sandra Maria, moradora da Vila Autódromo, destaca que a história do Rio se constrói sobre a expulsão de quem ajudou a edificar a cidade.
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Contradições da Inclusão Cultural no Centro do Rio
A importância cultural do centro carioca é inegável, mas a inclusão social é desmentida pela relação que o público tem com o espaço. Enquanto jovens e turistas buscam o lazer e a identidade carioca nas redes sociais, trabalhadores e moradores tradicionais enfrentam barreiras que os afastam desses ambientes.
A segregação estrutural é reforçada por símbolos culturais que, antes parte do cotidiano popular, tornaram-se mercadorias elitizadas. A cultura do subúrbio, representada por bares, rodas de samba e feiras, passou a ser explorada comercialmente, enquanto seus criadores são excluídos do consumo desses espaços.
Leonardo reflete sobre essa apropriação cultural: “Eles veem a cultura do subúrbio como oportunidade de exploração, lucrando alto com um estilo de vida ‘simples’ vendido no centro, enquanto os verdadeiros donos dessa cultura desejam consumi-la, mas agora de forma elitizada e acompanhados por aqueles que a apropriaram”.

