Impactos da Proibição de Celulares nas Salas de Aula
A restrição do uso de celulares nas escolas brasileiras tem mostrado uma associação direta com a melhora no desempenho acadêmico dos alunos, especialmente nas disciplinas de matemática e português. Essa é a conclusão de um estudo publicado recentemente por um grupo de pesquisadores da Universidade Stanford, que investigou os efeitos da medida na rede municipal do Rio de Janeiro e também na nova legislação nacional sancionada no início de 2025.
Os pesquisadores, liderados por Guilherme Lichand, professor da Stanford Graduate School of Education, realizaram uma análise abrangente que incluiu estudantes do 6º ao 9º ano da rede municipal carioca. Além disso, mais de 3 mil alunos, educadores e gestores de instituições de ensino públicas e privadas foram entrevistados para entender a percepção da comunidade escolar após a implementação da lei nacional.
Os dados revelaram que 83% dos alunos relataram uma maior atenção durante as aulas após a proibição do uso dos celulares. O aumento foi ainda mais significativo entre os alunos do ensino fundamental, com 88% afirmando prestar mais atenção, enquanto no ensino médio esse percentual caiu para 70%. Contudo, os pesquisadores também destacaram algumas dificuldades de adaptação, como a sensação de tédio durante os intervalos, relatada por 44% dos estudantes, e um aumento da ansiedade entre 49% dos professores que notaram mudanças no comportamento dos alunos sem os aparelhos.
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A Experiência do Rio de Janeiro
O estudo focou, em particular, na experiência do Rio de Janeiro, que foi pioneiro na implementação de uma política restritiva em relação ao uso de celulares nas salas de aula. Em agosto de 2023, a prefeitura proibiu o uso não pedagógico dos dispositivos, e, em fevereiro de 2024, a restrição foi expandida para incluir todos os momentos escolares, exceto quando utilizado para fins educacionais específicos orientados por professores.
A pesquisa comparou escolas que já tinham regras rígidas sobre celulares com aquelas que permitiam maior liberdade de uso antes da nova regulamentação. O resultado foi claro: as escolas mais afetadas pela nova política mostraram um aumento maior no desempenho dos alunos em matemática e português em comparação com aquelas que já restringiam o uso dos dispositivos antes da nova regra.
Os pesquisadores destacaram que a melhoria no desempenho poderia ser comparável a intervenções educacionais significativas, como a redução do número de alunos por sala ou a formação dos professores. Notavelmente, os efeitos foram mais evidentes em matemática do que em português, com a primeira fase da política, que se limitava à sala de aula, mostrando resultados menos impactantes.
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Desafios da Socialização e a Reinvenção da Escola
Apesar dos benefícios em termos de concentração, Lichand enfatiza que a proibição de celulares vai além de aumentar a atenção nas aulas. Ela também visa resgatar momentos de socialização presencial, um desafio crescente em um cenário onde crianças e adolescentes estão cada vez mais habituados ao uso constante de smartphones.
“O objetivo é garantir que os alunos estejam presentes, não apenas para receber conhecimento, mas também para formar cidadãos. Essa socialização é crucial e exige um novo olhar sobre as atividades realizadas nas escolas”, afirma Lichand.
Os dados sobre o tédio relatado pelos alunos indicam que as escolas precisam reinventar suas propostas de socialização e interação. Lichand alerta que, após a imposição da lei, surgem novos desafios que requerem criatividade e inovação nas práticas pedagógicas.
Um período de adaptação é essencial, conforme evidencia um estudo do National Bureau of Economic Research sobre escolas dos Estados Unidos, que adotaram medidas semelhantes. Os resultados mostraram um aumento inicial em incidentes disciplinares e uma queda no bem-estar dos alunos, mas esses efeitos foram diminuindo com o tempo à medida que a comunidade escolar se ajustou à nova realidade. Para Lichand, isso sublinha a necessidade de construir, gradativamente, novas formas de convivência e interação social nas escolas.
O estudo completo pode ser acessado em inglês, oferecendo uma visão aprofundada sobre os resultados e recomendações.

