O Custo Efetivo Total (CET) e suas implicações
As imagens de negociações na compra de veículos têm sido um sucesso nas redes sociais, mas muitos internautas estão perplexos ao ver que os valores finais vão muito além das parcelas inicialmente anunciadas. A razão por trás disso é o Custo Efetivo Total (CET), que agrupa não apenas os juros, mas também outras tarifas e encargos que fazem parte de qualquer operação de crédito. Esse conceito é aplicável em financiamentos de veículos, imóveis e até em créditos consignados.
Nesta análise, vamos explicar o que é o CET, quais são os direitos do consumidor e como determinar se um empréstimo realmente vale a pena.
O que compõe o Custo Efetivo Total (CET)
O CET é essencialmente a taxa que revela o custo real de um empréstimo ou financiamento. Ao incluir não apenas os juros, mas todas as despesas envolvidas na operação, ele fornece uma base sólida para comparar diferentes opções de crédito.
Mas o que entra exatamente na composição do CET?
- Juros: o montante que o banco cobra para conceder o empréstimo, funcionando como uma espécie de “aluguel” do dinheiro durante o período de pagamento.
- Imposto sobre Operações Financeiras (IOF): tributo obrigatório que o governo impõe sobre operações de crédito, elevando o custo total da dívida.
- Tarifas: incluem cobranças como taxa de cadastro e outras taxas administrativas que variam de acordo com a instituição financeira.
- Seguros: produtos como o seguro prestamista, que quita a dívida em caso de falecimento ou invalidez. Embora nem sempre sejam obrigatórios, devem ser autorizados pelo consumidor.
- Outros encargos: despesas adicionais que podem ocorrer, variando conforme o banco e o tipo de crédito solicitado.
Os juros, o principal componente do CET, costumam concentrar a maior parte do valor pago ao longo do tempo. Assim, pequenas oscilações nas taxas podem resultar em um aumento significativo no valor total da dívida. Geralmente, os juros variam entre 30% e 60% ao ano; no caso do cartão de crédito, especialmente no rotativo, essa taxa pode ultrapassar 400% ao ano, tornando-o uma das opções mais onerosas disponíveis.
A importância de comparar o CET
Na prática, o CET é uma ferramenta que revela o custo real do crédito. Por exemplo, ao financiar R$ 1.000 com juros de 12% ao ano, a inclusão de taxas como o IOF e a taxa de cadastro pode elevar o custo total para cerca de 43,9% ao ano. Isso demonstra que focar apenas nos juros ou no valor das parcelas pode levar a uma percepção errada sobre a acessibilidade do empréstimo, segundo especialistas.
“Não é necessário ser um expert em matemática financeira para entender isso. Basta usar uma regra simples: quanto você pega hoje e quanto devolverá no total”, afirma Marcos Crivelaro, professor de finanças da Fundação Vanzolini, da Universidade de São Paulo (USP). Ele destaca que encargos como seguros e serviços adicionais muitas vezes passam despercebidos, fazendo com que o consumidor acredite que só está pagando juros, quando na verdade há diversos custos ocultos que aumentam o valor final.
Endividamento e Cautela nas Finanças
A preocupação com o CET se intensifica em um cenário de alta endividamento. Em março, 80,4% das famílias brasileiras estavam com dívidas a vencer, um recorde na série histórica, segundo a Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC). A inadimplência, por sua vez, atingiu 29,6%, um número que, embora estável em relação a fevereiro, é superior ao registrado no ano anterior.
Apesar de uma leve queda da taxa Selic, os juros continuam elevados, o que torna o crédito caro e pressiona o orçamento das famílias. A elevação nos preços dos combustíveis também tem contribuído para a alta no custo de vida, levando a um aumento no uso do crédito.
“Decisões tomadas sem um completo entendimento dos custos podem complicar ainda mais a situação financeira de uma pessoa”, alerta Crivelaro. “No final das contas, o que realmente importa é o total que será pago. Às vezes, a parcela parece caber no bolso, mas o custo final pode assustar.” Em vista desse panorama, é prudente agir com cautela. “Agora não é um bom momento para assumir novas dívidas, a menos que se trate de trocar uma dívida mais alta por outra com juros mais baixos — e, mesmo assim, com uma análise detalhada”, recomenda.
Quando os juros são considerados abusivos?
Não existe uma taxa fixa que defina os juros abusivos. Eles são considerados assim quando estão muito acima da média do mercado ou em situações onde o contrato apresenta irregularidades. A legislação brasileira exige a divulgação clara do CET em todas as etapas da contratação. Segundo Stefano Ribeiro Ferri, especialista em direito do consumidor, a transparência é fundamental para evitar prejuízos. “O CET deve refletir o custo total da operação e ser destacado tanto no contrato quanto na publicidade. O consumidor precisa entender exatamente quanto vai pagar”, afirma.
De acordo com Ferri, a falta de clareza nas informações, a inclusão de serviços sem consentimento ou a venda casada podem configurar práticas abusivas. “Se houver falta de transparência ou cobranças indevidas, o consumidor pode buscar a revisão do contrato na Justiça. Em alguns casos, o contrato pode ser anulado ou ajustado”, conclui.

